domingo, 31 de maio de 2009

NOSSA POBREZA SEXUAL

Uma sociedade baseada na concentração de poder e no intercâmbio econômico empobrece cada área da vida, inclusive as mais pessoais. Existe mais ou menos acordo quando se fala da liberação da mulher, da liberação dos homossexuais e inclusive a liberação sexual dentro do âmbito anarquista. Além disso, é fácil encontrar análises sobre a dominação masculina, sobre o patriarcado e o heterossexismo, mas a realidade do empobrecimento sexual parece que foi amplamente ignorada, a respeito da expressão sexual, limitaram às percepções como monogamia, poligamia, poliamor e outros mecanismos similares das relações amorosas. Segundo creio, esta limitação é em si mesma um reflexo de nosso empobrecimento sexual; limita-nos a falar dos mecanismos das relações de maneira que possamos evitar os questionamentos sobre a qualidade dessas mesmas relações.

Existem vários fatores que influem no empobrecimento sexual que experimentamos nesta sociedade. Se examinarmos suas origens, as instituições do matrimônio, a família e a imposição de algumas estruturas sociais patriarcais são importantes, e o papel que jogou não pode ser ignorado. Mas durante as últimas décadas, pelo menos aqui no chamado Ocidente, a força destas instituições diminuiu consideravelmente. No entanto o empobrecimento sexual não o fez. Talvez tudo ao contrário. Voltou-se mais intenso e o sentimos de uma forma mais desesperada.

O mesmo processo que permitiu a debilidade e a desintegração gradual da família é que agora sustenta o empobrecimento sexual: o processo de "coisificação". A "coisificação" da sexualidade é evidentemente tão antiga como a prostituição (e quase tão velha como a civilização), mas nas últimas cinco décadas, a publicidade e os meios de comunicação coisificaram a concepção de sexualidade. A publicidade nos oferece um atrativo sexual que influencia nas massas, vinculando a paixão espontânea com desodorantes, sabonetes, perfumes e carros. Através dos filmes e da TV nos mostram imagens sobre a facilidade com a qual alguém pode conseguir gente bonita em sua cama. Evidentemente, é necessário que seja belíssimo e atrativo, e para consegui-lo nos servem desodorantes, perfumes, academia, dietas e produtos para o cabelo. Estamos adestrados para desejar imagens de "beleza" de plástico que são inalcançáveis porque em grande parte são fictícias. Está criação de desejos artificiais e inalcançáveis serve perfeitamente às necessidades do Capital, já que garantem uma continua sensação de insatisfação que pode ser utilizada para manter as pessoas comprando, numa tentativa desesperada de aliviar seus anseios.

A coisificação da sexualidade conduziu um tipo de "liberação" dentro do esquema das relações de mercado. Não somente porque é muito freqüente ver relações sexuais entre pessoas solteiras no cinema, mais porque cada vez mais as relações de homossexualidade, bissexualidade e inclusive algumas outras raras estão ganhando certo nível de aceitação entre a população. Evidentemente, de maneira que sejam úteis as necessidades de mercado. De fato, estas práticas são transformadas em identidades nas quais alguns se ajustam de forma mais ou menos estrita. Desta maneira, se converte em muito mais que uma simples prática de um determinado ato sexual. Assim "estilos de vida" completos estão associados a eles, implicando conformismo, lugares específicos para ir, produtos específicos para se comprar. Neste sentido, os gays, as lésbicas, os bissexuais, o couro e as subculturas desenvolvem suas funções como objetivos de mercado à margem da família tradicional e do contexto geral.

De fato, a coisificação da sexualidade permite que todas as formas de práticas sexuais sejam produtos de venda. No mercado sexual, todo o mundo vende a si mesmo ao mais alto posto enquanto tenta comprar aqueles que lhe atraem ao menor preço. Assim, se cria o absurdo jogo de jogar duro para conseguir ou tentar pressionar a outros para manter relações sexuais. E assim se dá a possessividade, que tão frequentemente é desenvolvida nas atuais relações de "amor". Depois de tudo, no regime do mercado, não é possuidor aquele que comprou?
Neste contexto, o ato sexual tende a tomar-se na mesma medida; uma forma quantificável em consonância com esta coisificação. Dentro de uma sociedade capitalista não deveria surpreender que a "liberação" da franqueza sexual signifique predominantemente uma discursão sobre o mecanismo do sexo. O jogo do ato sexual se reduz não somente ao prazer físico, mas mais especificamente ao orgasmo, e o discurso sexual se centra sobre os mecanismos mais efetivos para ganhar este orgasmo. Não quero ser mal interpretada. Um orgasmo eufórico é algo maravilhoso. Mas centrar o encontro sexual em conseguir um orgasmo, não nos permite sentir o jogo de nos perder no outro, aqui e agora. Mas que ser uma imersão de um no outro, o sexo centrado em alcançar o orgasmo se converte em uma tarefa que aspira a um objetivo futuro, a manipulação de certos organismos para ganhar um fim. Tal e como eu o vejo, isto transforma o sexo em uma atividade basicamente masturbatória - duas pessoas usando uma a outra para conseguir seu fim desejado, trocando (desde de o ponto de vista estritamente econômico) prazer sem dar nada de si mesmo. Nestas ações deliberadas, não existe lugar para a espontaneidade, a paixão sem medida, a entrega nas mãos de outro.

Este é o contexto social da sexualidade em nossas vidas atuais. Dentro deste contexto existem muitos outros fatores que reforçam o empobrecimento da sexualidade. O capitalismo necessita de movimentos de liberação parcial de todos os tipos, tanto pra a recuperação da revolta como para introduzir a embrutecida lei do mercado em cada vez mais aspectos de nossa vida. Por isso o capitalismo necessita do feminismo, dos movimentos de liberação racial e nacional, da liberação dos gays e também evidentemente da liberação sexual.

Mas o capitalismo não faz uso de forma imediata de todos os velhos métodos de dominação e exploração, e não faz porque são sistemas lentos e complicados. As lutas de liberação parcial mantêm sua função recuperadora precisamente para continuar exercendo a velha opressão como contrapartida para prevenir, que aqueles envolvidos em lutas de liberação, possam perceber a escassez de sua "liberação" dentro da ordem social atual. De tal maneira se o puritanismo e a opressão sexual tivessem sido realmente erradicados dentro do capitalismo, a escassez dos sex-shops mais feministas, conscientes e amigos dos gays seria óbvia.

E assim o puritanismo continua existindo e não só como um vestígio de tempos anteriores, caídos da moda. Isto se manifesta claramente em métodos óbvios, tais como a opressão ainda vigente do matrimônio, (ou pelo menos criar uma identidade como casal) e ter uma família. Mas também se faz manifesto de forma que a maioria das pessoas não percebe, porque nunca consideraram outras possibilidades. A adolescência é a época em que os impulsos sexuais são mais fortes devido às mudanças que se produzem no corpo. Em uma sociedade sã, os adolescentes deveriam ter a oportunidade de explorar seus desejos sem medo ou censura, deveriam fazê-lo de uma forma aberta e aconselhada, se quiserem, pelos adultos. Enquanto que os desejos intensos dos adolescentes são claramente reconhecidos (quantas vezes filmes de humor ou programas de TV se baseiam na intensidade destes desejos e na impossibilidade de explorar-los de uma forma livre e aberta) nesta sociedade, não se criam métodos para que esses desejos possam explorar-se livremente, esta sociedade os censura, fazendo uma chamada à abstinência, deixando os adolescentes ignorando seus desejos, limitando-os a masturbação ou aceitando frequentemente ter sexo rápido em situações de muita pressão e ambientes nada confortáveis para evitar assim que lhes peguem. É difícil não estranhar que algum tipo de sexualidade sã houve se desenvolvido sob estas condições.

Porque o único tipo de "liberação" sexual de utilidade para o Capital é aquela que permite preservar a pobreza sexual, e utilizará todo tipo de ferramentas para a manutenção da repressão sexual sob o engano de uma liberação fictícia. Desde que as velhas justificações religiosas para a repressão sexual deixaram de ser válidas para amplas porções da população, um medo físico pelo sexo atua agora como catalisador na criação de um novo meio para a repressão. Este medo é promovido principalmente por duas frentes. Em primeiro lugar é o meio do "depredador sexual". Ataque sexual a jovens, olhar violador e a violação são fatos muito reais. Mas os meios de comunicação exageram a realidade com explicações sensacionalistas e especulações. O manejo destes assuntos por parte das autoridades e os meios de comunicação não têm como objetivo encarregar-se destes problemas, mas seguir promovendo o medo. Na realidade, os casos de violência sexual contra mulheres e crianças (e me refiro especificamente àqueles atos de violência baseados no fato de que as vítimas sejam crianças ou mulheres) são a maioria das vezes, mais freqüentes que os atos de violência sexual. Mas o sexo tem um forte valor social que concede aos atos de violência sexual uma imagem muito sinistra. E o medo promovido pelos meios de comunicação em relação aos ditos atos reforça uma atitude social generalizada, de que o sexo é perigoso e deve ser reprimido ou pelo menos publicamente controlado.

Em segundo lugar, esta o medo às doenças sexualmente transmissíveis e em particular a AIDS. De fato, a princípios dos anos 80 o medo das doenças sexualmente transmissíveis deixou de ser em grande medida um método útil para manter as pessoas afastadas do sexo. A maioria destas doenças podia ser tratada com relativa facilidade, e as pessoas mais inteligentes se deram conta da inutilidade de utilizar preservativos na prevenção da propagação de doenças como gonorréia, sífilis e muitas outras doenças. Nesse momento se descobriu a AIDS. Havia muito que dizer sobre a AIDS, muitas perguntas teriam que ser respondidas, uma grande quantidade de negócios suspeitos (no sentido literal do termo) referentes a este fenômeno, mas a respeito do tema que estamos tratando, de novo o medo ao contágio de doenças sexualmente transmissíveis se dedica para promover a abstinência sexual, ou pelo menos que a sexualidade seja menos espontânea, menos desordenada, e gera assim encontros sexuais mais estéreis.
Em meio a tal ambiente de deformação sexual, outros fatos desenvolvem o que parece ser inevitável. Uma tendência a agarrar-nos desesperadamente àqueles com quem temos conectado, ainda que seja uma conexão empobrecida. O medo de estar sozinha, sem amor, nos conduz a nos unir com amantes quando há muito já deixamos de amá-los. Inclusive quando o sexo continua existindo na relação, provavelmente seja mecânico e ritual, e não um momento absoluto de entrega ao outro.

E claro, são aqueles que simplesmente sentem que não podem controlar completamente esta tristeza, este meio desamparado de relações artificiais e conduzido pelo medo, e por isso nunca o tentarão. Não é uma falta de desejo que impõe sua "abstinência", senão o desânimo para se vender assim mesma e uma desesperança ante a possibilidade de encontros sexuais reais. Frequentemente estes indivíduos que, no passado, se situaram na linha de busca de encontros eróticos apaixonados, intensos e foram recusados como artigos de inferior quantia. Foram apostados, os outros compraram e venderam. E perderam a esperança de manter a aposta.
Em qualquer caso, vivemos em uma sociedade que empobrece todo tipo de contato, os sexuais também. A liberação sexual - no sentido real, que é nossa liberação para explorar a plenitude, do abandono erótico carnal no outro - nunca o poderá realizar-se por completo dentro desta sociedade, porque esta sociedade necessita do empobrecimento, dos encontros sexuais coisificados, tanto como necessita que todas as interações sejam coisificadas, medidas, calculadas. Assim que os encontros sexuais livres, como cada encontro livre, só pode existir contra esta sociedade. Mas isto não é um motivo de desesperação (a desesperação depois de tudo, não é mais que o outro lado da esperança), mas sim deve conduzir-nos a uma exploração subversiva. O reino do amor é muito amplo, e existem infinitos caminhos a explorar. A tendência entre os anarquistas (pelo menos nos EUA) de reduzir as questões de liberação sexual ao mecanismo de ditas relações (monogamia, não-monogamia, poliamor, "promiscuidade", etc) deve ir mais além. Na expressão sexual livre têm cabimento tudo isto e muito mais. De fato, a riqueza sexual não tem nada haver com ambos os mecanismos (tanto as relações como os orgasmos) ou com a quantidade (o capitalismo tem provado há muito tempo que seus choros cada vez mais efetivos ainda cheiram a lixo). E sim consiste no reconhecimento de que a satisfação sexual não é exclusivamente uma questão de prazer como tal, senão concretamente de prazer que brota do encontro real e o reconhecimento, a união dos desejos e dos corpos, e a harmonia, o prazer e o êxtase que se obtém dele.

Assim, fica claro que necessitamos perseguir uns encontros sexuais como os que procuramos pra o resto de nossas relações, em total oposição a esta sociedade, não pode ser um dever revolucionário, senão porque é a única maneira possível de ter relações sexuais plenas, ricas e desinibidas na qual o amor deixe de ser uma desesperada dependência mútua e em seu lugar se transforma na exploração extensiva do desconhecido.

Willful Disobedience - Volume 4 (n° 3-4, Fall-Winter 2000)
Tradução: Celula Zero.

domingo, 10 de maio de 2009

OS YIPPIES E A POLITIZAÇÃO DO PSICODELISMO

Depois do post sobre o filme/documentário "CHICAGO 10" recebemos alguns e-mails de pessoas querendo saber mais sobre o movimento dos Yippies e a atmosfera represiva da Chicago de 1968. Arranjei uma matéria que poderá ser bastante explicativa sem ser maçante sobre como surgiram os Yippies e de como foi o clima do "Chicago Trial", a maior prova de domínio militar norte-americano sobre a opinião pública civil...
Do ponto de vista da história e da organização do movimento hippie, 1967 é um ano especialmente marcante. Foi em outubro, por exemplo, que ocorreu aquela enorme e colorida manifestação pacifista na qual se tentou, nada mais nada menos, que fazer levitar o Pentágono, no melhor estilo do ativismo da época. Mesmo sem entrar no mérito objetivo das técnicas empregadas, é fácil perceber que se trata, no mínimo, de uma nova e curiosa forma de enfrentar o poder. Ainda durante este ano, dois fatos importantes: em São Francisco, verdadeiro berço do "hippismo", realiza-se o enterro simbólico do movimento hippie. Um caixão é cremado, enquanto os manifestantes, em uníssono, bradam: “Os hippes morreram! Vivam os homens livres!” Praticamente ao mesmo tempo, Abbie Hoffman e Jerry Rubin fundam o YIP (Youth International Party, o Partido Internacional da Juventude), tentativa de abrir um espaço mais institucionalizado que fosse capaz de canalizar a energia revolucionária de toda aquela juventude rebelde. Entrava assim em cena a figura do yippie, o hippie politizado, expressando talvez o início de uma convergência entre os projetos de revolução cultural e revolução política. Jerry Rubin, ex-líder estudantil em Berkeley, afirmava: “Os yippies são revolucionários. Misturamos a política da Nova Esquerda com um estilo de vida psicodélico. Nossa maneira de viver, nossa própria existência é a Revolução”. Aliás, este esforço de tentar a fusão de um ativismo mais diretamente político com o psicodelismo daquele momento era vivível por toda parte.

Em seu livro Rock, o Grito e o Mito, Roberto Muggiati afirma o seguinte sobre o importante congresso de antipsiquiatria realizado em Londres, no ano de 1967: “No verão de 1967, 0 rock é um dos assuntos estudados em Londres no congresso Dialética da Libertação, organizado pelo psicanalista existencial R. O. Laing e seus colegas da ‘antipsiquiatria’, num esforço para conciliar libertação social e libertação psíquica. São grupos da Nova Esquerda, psicanalistas e sociólogos que debatem, procurando dar forma a uma esquerda visionária e fundir a política radical com a política do êxtase”. Outro acontecimento que dá mostras desta “politização radical do psicodelismo”, na segunda metade da década de 60, são os distúrbios que envolveram a Convenção do Partido Democrático realizada em Chicago, em agosto de 1968. O episódio se converteu numa das maiores demonstrações do potencial de violência e repressão que o Sistema era capaz de mobilizar contra o protesto organizado de negros, estudantes e hippies (ou yippies). O que se viu foram três dias de intensas manifestações e violentos choques com uma polícia disposta a fazer um uso essencialmente político de sua força, revelando a existência de um verdadeiro plano com o objetivo de assustar e intimidar os manifestantes e tendo como resultado um enorme saldo de mortos e feridos.
De uma certa forma, estes episódios demonstravam os limites do liberalismo americano na sua possibilidade de tolerar e absorver a contestação que os grupos ali presentes representavam e engendravam. O resultado final foi o famoso Chicago Trial (Processo de Chicago) envolvendo diversos líderes dos movimentos ali presentes, como Bobby Seale, do Black Panther Party, Jerry Rubin e Abbie Hoffman (do YIP) ou Tom Hayden, um dos fundadores da SDS (Students for a Democratic Society), e um importante líder da Nova Esquerda, todos indiciados sob a acusação de “conspiração”, embora a falta de provas fosse evidente. Na verdade, o que estava sendo julgado neste momento era a própria identidade de uma geração, com sua consciência crítica e seus ideais de transformação social.

Mas não foi apenas nos Estados Unidos que o ano de 1968 significou um momento de confrontação radical com o Sistema. Também na Europa, este foi um ano decisivo para o movimento estudantil — uma das grandes manifestações do ativismo da juventude rebelde dos anos 60. Quem não se lembra do Maio de 68 francês, com suas barricadas e seus slogans de um radicalismo que em nada se parecia com o das manifestações políticas tradicionais? “Sejam realistas: peçam o impossível”, “O sonho é realidade”, “Temos uma esquerda pré-histórica”, “O álcool mata, tomem LSD”, “Sou marxista, tendência Groucho”, “É proibido proibir” e tantos outros. Do mesmo modo, as universidades alemãs demonstraram durante toda a década, uma incrível efervescência. Nomes como Daniel Cohn-Bendit, na França, ou Rudi Dutschke, na Alemanha, se tornavam internacionalmente conhecidos.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, especialmente Berkeley, Califórnia, e Colúmbia, Nova York, já haviam se convertido em pólos internacionais da luta dos estudantes. A primeira grande revolta estudantil ocorrida em Berkeley, em 1964, teve como um de seus resultados a criação do Free Speech Movement. No ano de 1966, novos e violentos distúrbios viriam a ocorrer na Califórnia — o nome de Mário Sávio se tornava definitivamente conhecido. Em 1968, seria a vez da grande revolta ria universidade de Colúmbia, com forte presença do movimento negro.
Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa Ocidental, o que chamava a atenção nesta onda de revolta estudantil que marcou a década de 60 era a sua originalidade em termos da abertura de novos espaços de luta política e da elaboração de uma nova linguagem crítica. Fiel à ideologia da rebelião da juventude internacional, o ponto focal da crítica e do protesto destas fileiras do movimento estudantil era a própria universidade enquanto instituição. Suas bandeiras de luta, longe de estarem referidas apenas às questões mais gerais do conjunto da sociedade, falavam da sala de aula e das relações mais diretas vividas no espaço específico das instituições de ensino. Quando se questionava a repressão, por exemplo, a ênfase era posta naquela exercida no interior da escola e que se manifestava tanto no dia-a-dia das relações entre as pessoas ali envolvidas, no desempenho de seus papéis, quanto no discurso que sé produzia e reproduzia dentro daquelas instituições. E no bojo deste processo que vão surgir as universidades livres ou as antiuniversidades, com seus currículos radicalmente transformados e sua organização montada em bases muito diferentes das do ensino tradicional, dentro do espírito mais geral da criação de anti ou contra- instituições, que tanto marcava aqueles anos de intenso vigor da contracultura.

Este novo caminho trilhado pelo movimento estudantil internacional era, em boa medida, o resultado do encontro de todas aquelas forças emergentes que a rebelião da juventude havia posto em cena. De um lado, hippies, yippies, negros e uma infinidade de minorias etnoculturais que se organizavam e, de outro, um novo pensamento de esquerda que tentava se ajustar às transformações e à complexidade das sociedades industriais. Era a Nova Esquerda, que vinha se organizando desde o começo dos anos 60. Um de seus frutos no interior do movimento estudantil foi a SDS (Students for a Democratic Society), a maior organização estudantil dos Estados Unidos, com forte presença em vários países europeus, fundada por volta de 1962. Por sua vez, este discurso crítico que o movimento estudantil internacional elaborou ao longo dos anos 60 visava não apenas as contradições da sociedade capitalista, mas também aquelas de uma sociedade industrial, tecnocrática, nas suas manifestações mais simples e corriqueiras. Nas palavras de um manifesto afixado à entrada principal da Sorbonne durante o Maio de 68: “a revolução que está começando questionará não só a sociedade capitalista como também a sociedade industrial. A sociedade de consumo tem de morrer de morte violenta. A sociedade da alienação tem de desaparecer da história. Estamos inventando um mundo novo e original. A imaginação está tomando o poder”.

Em 1971, foi organizado um enorme congresso em Berkeley, Califórnia, do qual participaram, ao lado de sociólogos e outros cientistas, os principais líderes das comunidades hippies, jovens radicais de organizações estudantis, representantes de minorias como o Gay Power, Women’s Lib, Black Panther e assim por diante. O que se procurava realizar era uma espécie de balanço de toda aquela intrincada movimentação dos anos 60, bem como a avaliação das possíveis saídas a curto e médio prazo, O resultado foi a publicação de uma “declaração de princípios” na qual, em determinado trecho, se afirmava o seguinte: “A nova sociedade, a Sociedade Alternativa, deve emergir do velho Sistema, como um cogumelo novo brota de um tronco apodrecido. Acabou-se a era do protesto subterrâneo e das demonstrações existenciais. Acabou-se o mito de que os artistas têm que estar à margem de sua época. Devemos de agora em diante investir toda a nossa energia na construção de novas condições. O que for possível utilizar da velha sociedade, nós utilizaremos sem escrúpulos: meios de comunicação, dinheiro, estratégia, know-how e as poucas e boas idéias liberais”.
Por Carlos Alberto M. Pereira.
FONTE: Guerra de Estilos

sábado, 9 de maio de 2009

INTEGRALISMO, UMA AMEAÇA À NOSSA LIBERDADE

Temos recebido, nos últimos tempos, uma série de notícias e denúncias de atos de intolerância e preconceito vindos de indivíduos que se autodenominam Carecas, White Powers, RAC'S, etc., e defendem posições discriminatórias de extrema-direita que se aproximam muito de ideologias fascistas, nazistas e integralistas. Por detrás de toda a violência cada vez mais explícita por parte destes grupos intolerantes, estão outras organizações, que dão apoio financeiro e teórico para que os mesmos continuem atuantes. Grupos estes que envolvem autoridades governamentais, judiciais, militares, religiosas, entre outras pessoas de influência. Negam seu envolvimento com o nazismo, porém as ligações são muito claras.

No Brasil, se assumem como INTEGRALISTAS.

Mas afinal, o que é isso? O Integralismo é um conjunto de idéias que se desenvolveu no Brasil a partir da década de 30, inspirado por regimes adotados em outros países, como o fascismo italiano e o nazismo alemão, que deixaram milhares de mortes e exterminaram populações inteiras, motivados por uma suposta superioridade destes povos sobre todos os outros. Seguindo estes modelos, criaram símbolos e saudações que os identificassem, se reunindo sob a liderança de Plínio Salgado na AIB (Aliança Integralista Brasileira). Defendem um nacionalismo exagerado, que busca transformar o Brasil na mais poderosa potência mundial em todas as áreas, massacrando todos os outros povos com sua xenofobia. Sua discriminação a todas as diferenças passa também pela questão religiosa: são cristãos e acreditam na existência de um único Deus, excluindo e oprimindo todas as outras crenças populares e religiões milenares. Prova disto é a discriminação gritante contra judeus e outras minorias. Não toleram diferenças culturais, ideológicas, políticas e sexuais.

Por detrás de seus belos discursos de "amor à Pátria" e "defesa da democracia" se encontra um mesquinho sentimento de superioridade sobre os demais países através da demarcação de fronteiras que respondem a interesses políticos, econômicos e militares da burguesia e que nada tem a ver com nossas características culturais e étnicas.

Não podemos permitir que isso continue!


PELO RESPEITO ENTRE TODOS OS POVOS E ÀS DIFERENÇAS, COMBATAMOS A INTOLERÂNCIA!!!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

45% DOS BRASILEIROS DIZEM QUE NÃO GOSTAM DE LER.


ENTÃO, SEUS DESOCUPADOS... JÁ TÁ BOM DE DOWNLOADS, NÉ NÃO???
QUE TAL LER UM POUQUINHO PRA VARIAR, HEIM?

BRASILEIRO TEM PREGUIÇA DE LER:

Leitura foi 5ª opção citada (35%) sobre o que fazer no tempo livre; 77% opta pela TV. Sul é região onde mais se lê (média de 5,5 livros por pessoa), à frente do Sudeste (4,9), Centro-Oeste (4,5), Nordeste (4,2) e Norte (3,9)
Lucas Ferraz escreve para a “Folha de SP”:

No país de escritores como João Guimarães Rosa, Machado de Assis e Carlos Drummond de Andrade, 45% dos entrevistados na pesquisa "Retratos da Leitura no Brasil" disseram não gostar de ler. O percentual, aplicado à população brasileira, corresponde a mais de 77 milhões de pessoas.

Segundo o balanço, realizado pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística), a pedido do Instituto Pró-Livro, e divulgado ontem (28/5), o brasileiro lê, em média, 4,7 livros por ano, e compra ainda menos, média de 1,2 exemplar a cada 12 meses. Quando indagada sobre o que prefere fazer em seu tempo livre, a maioria da população opta pela televisão (77%) -a leitura foi a quinta opção citada pelos entrevistados, com 35%, atrás de hábitos como ouvir música e rádio e descansar.

Em um país que tem 18% de analfabetos, segundo dados de 2006 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), foi considerado como leitor quem leu pelo menos um livro durante os três meses anteriores à pesquisa, feita entre novembro e dezembro de 2007, equivalente a 55% dos entrevistados.

Entre os leitores que dedicam seu tempo livre para ler, 27% deles lêem revistas (leitura semanal) e 20%, jornais (leitura diária). Os livros são preferidos para leituras mensais -como afirmaram 14% dos entrevistados.

Por região:
O Sul é a região onde mais se lê (média de 5,5 livros por pessoa), à frente do Sudeste (4,9 livros), Centro-Oeste (4,5 livros), Nordeste (4,2 livros) e Norte (3,9 livros). Em 2001, na primeira edição da pesquisa, a média de leitura da população era de 1,8 livro por ano, mas as metodologias utilizadas são diferentes.

Enquanto aquela ouviu pessoas com idade superior a 15 anos, a pesquisa divulgada ontem entrevistou crianças a partir dos cinco anos e analfabetos funcionais, em todos os Estados e no Distrito Federal. A margem de erro da pesquisa é de 1,4 ponto percentual.

Na opinião do escritor Luis Fernando Verissimo, o preço do livro é uma barreira contra novos leitores. "A maioria está mais preocupada em sobreviver, não tem como comprar livro", disse o escritor -o último da lista de 25 nomes mais admirados ("estou na zona de rebaixamento", brincou).

Galeno Amorim, coordenador da pesquisa, negou que o preço seja um "complicador" -o estudo contou com o apoio do Snel (Sindicato Nacional dos Editores de Livros) e da CBL (Câmara Brasileira do Livro).
Hábito:
As professoras aposentadas Manoelina de Barros, 75, e Maria Helena Tosoni, 68, gostam de se encontrar em livrarias para comprar livros. Elas afirmam que só têm essa disponibilidade porque são aposentadas, e lamentam que a maioria dos professores leia pouco. Sobre o motivo, Tosoni é categórica: "Se o salário fosse maior, leríamos mais".

A metroviária Telma Piccirillo, 45, diz que nunca obrigou seus filhos Victor, 10, e Taynã, 15, a ler, mas sempre cultivou o hábito: "Quando não sabiam ler, eu lia para eles". Ela acredita que lê mais que seus colegas: "Eles são meio preguiçosos".

FUR FIGHTERS: ANIMAIS CONTRA A INDÚSTRIA DE PELES

"A Burberry pensa que pode fugir da ação dos ativistas com a venda de peles ao largo das costas dos animais que foram torturados em fazendas de peles. Não importa quantas vezes são mostrados os vídeos em que os animais são espancados, eletrocutados e esfolados vivos para que a indústria obtenha sua pele. Eles continuam a recusar a parar o ranking de lucros de uma indústria fundada sobre a tortura. Está na hora de tomar em suas próprias mãos esta batalha!
Escolha o seu animal vingador e faça o seu caminho em Burberry e mostre para a empresa que o único lugar que devemos ver peles é sobre o dorso dos animais a quem pertence."

Fur Fighters é um jogo inteligentíssimo e fácil de se jogar. Me foi enviado pelo grupo PETA2 - People for the Ethical Treatment of Animals (501 Front St., Norfolk, VA 23510) e é compatível em quase todos os PC's. Escolha seu FF e inutilize as peles da fábrica assassina mas cuidado...ou você pode se tornar mais uma peça daquela loja de horrores. Perfeito para quem quer desestressar um pouco e ainda vandalizar (mesmo que virtualmente!) uma loja de peles.

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CHICAGO 10 (Documentário)

Chicago 10 trata dos protestos contra a guerra do Vietnã que explodiram durante a convenção do Partido Democrata em 1968 e o julgamento bombástico (Chicago Trial) que se seguiu dos ativistas conhecidos como "Chicago 7", incluindo Abbie Hoffman e Jerry Rubin, dois grandes ícones do movimento "Yippie".

O diretor de um novo filme sobre os violentos protestos de 1968 contra a guerra do Vietnã, Brett Morgen, diz que não se trata de mais um filme nostálgico sobre os anos 1960, mas de um trabalho que busca refletir sobre a oposição atual às guerras do Afeganistão e Iraque.

Morgen disse à Reuters que teve a idéia de fazer o filme quando os EUA invadiram o Afeganistão, em 2001, e o Iraque, em 2003. "Há uma guerra em curso, existe uma oposição a essa guerra e há um governo tentando silenciar essa oposição", disse Morgen. "Em última análise minha história diz respeito a 2008, não a 1968.
Eu me apropriei de imagens e iconografias de 1968 para contar uma história sobre a guerra atual."

O que fez "Chicago 10" se sair mais que outros documentários da época foi fundir imagens de TV de arquivo com animação, para reencenar o julgamento e os protestos. Para atrair um público mais jovem, a trilha sonora inclui grupos como Rage Against the Machine, Beastie Boys e Eminem. Hoffman foi preso durante a convenção e, ao lado de seis outros, julgado por conspiração. Os dois advogados de defesa, mais o ativista dos Black Panthers, Bobby Seale, que foi amarrado e amordaçado no tribunal e acabou sendo separado do julgamento, compõem os 10 mencionados no título do filme. Algumas das cenas memoráveis do documentário são as aparições do escritor beat, Allen Ginsberg, cantando mantras de "não violência" frente as tropas de choque, os treinamentos pré-choque com a polícia, os acampamentos e, na minha opinião, a melhor cena de todas é quando as tropas de choque tentam tomar a força o parque e escondem as suas "credenciais" para não serem identificados enquanto espancam homens, mulheres e crianças...

O mês de agosto já está quase na porta e "Chicago 10" é uma ótima pedida pra poder enfiar na fuça dos USA as duas maiores derrotas que a "Grande Ave Americana" já sofreu em menos de 100 anos...a Guerra do Vietnam e a Guerra dos Yippies!!!
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ESPAÇO IMPRÓPRIO - 17/05/2009

JUVENTUDE DECADENTE (Documentário)

Este é o primeiro da trilogia "The Decline of Western Civilization" uns chamam de "Juventude Decadente" outros dão o titulo de "O Declínio Da Civilização Ocidental" mas este é um documentário pioneiro sobre o Punk Rock americano. Inclui apresentações do Black Flag, Circle Jerks, The Germs,Catholic Discipline, o surgimento da revista Slash e outras bandas do cenário punk na virada de 1979 /1980. Este documentário nunca foi lançado em DVD (apenas em versão VHS) o que é uma pena, pois a imagem ficaria perfeita, mas graças à pessoas como a galera do blog Arapas Rock Motors vocês poderão assistir esta obra de arte do cenário punk (verdadeiro!!!)...e ainda por cima legendado em português.
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VIOLÊNCIA PASSIONAL, VIOLÊNCIA JUSTIFICÁVEL:

Eu estava conversando com um amigo sobre o tema da violência revolucionária; ele estava defendendo o direito de ferir ou matar em auto-defesa, concedido a todo funcionário governamental ou corporativo envolvido num ato de assassinato, e eu estava tentando explicar porque essa noção me desagradava. Meu amigo tinha uma vantagem - afinal, se é aceitável usar violência como reação a um soldado ou mercenário corporativo invadindo sua casa para despejar, prender ou matar você, por que não usar violência contra o general ou diretor empresarial que os mandou? Eu acredito que a auto-defesa é um direito inato de todos os seres vivos, e também acredito que a conceitualização ou adoção de um pacifismo total só é possível numa sociedade colonizada e estatizada, que já foi ensinada a aceitar a idéia de uma cidadania passiva e a legitimação da violência autoritária. Por outro lado, acho que a violência é errada, que machucar alguém, mesmo o maior filho da puta corporativo, é em algum nível causa para tristeza, mesmo que eles estejam recebendo o que merecem. Para os anarquistas, a violência é, ou deveria ser, problemática num nível tático também. Toda violência tem um elemento autoritário. Isso é quase invisível nas ações de quem está em desvantagem, até o ponto em que os papéis se revertem, e o perdedor se torna vitorioso. Se a violência foi usada para alcançar a vitória, será ela necessária para preservar a vitória?

Parte da razão pela qual não pude articular meu desconforto e refutar o que meu amigo dizia é que eu quase concordava com ele. Afinal, no dia anterior eu ri alto quando li sobre os dois guardas de detenção de Woomera que foram espancados por anarquistas mascarados libertando alguns dos prisioneiros que buscavam asilo no país. Sob um certo aspecto é triste pensar nisso: um pobre e tolo robô que "só fazia seu trabalho", com a mandíbula quebrada, joelho esmagado, nariz ensangüentado, imaginando que diabos havia acontecido - não estaria ele protegendo seu país; fazendo o que lhe foi ensinado que era o certo a fazer? Mas em outro nível, mais óbvio, é incrívelmente satisfatório pensar que não só algumas pessoas que estavam presas agora estão livres, mas também que alguns "porcos" provaram o gosto da violência que exercem todos os dias. O caso dos guardas de detenção parece bem claro. Eles estavam usando violência para aprisionar pessoas, então alguns anarquistas usaram violência - não gratuitamente, só o que foi necessário - para libertar algumas dessas pessoas. Podemos chamar isso de um ato de violência justificável, e mesmo agora já não estamos lidando com auto-defesa direta, mas com violência usada para a defesa do outro. Seria também justificável usar a violência para deter os que fazem política, eleitos e nomeados para o cargo, que mandaram os que pediam asilo para a prisão? E quanto aos diretores das corporações que construíram a prisão, ou fabricaram as armas e outras ferramentas usadas pelos guardas? Certamente parece justificável - não seria justo deixar os brutamontes na linha de frente levarem todo o fogo. Se os políticos e diretores empresariais estão levando a guerra para nossos lares, e aos lares de pessoas no hemisfério Sul, não seria justificado levar a guerra aos seus lares? O problema é que isso seria justificável. Em um sistema global de injustiça e violência onipresentes, você pode continuar mudando os limites do que é justificável até que você chega num ponto quase Leninista de extermínio programado de todos os "contra-revolucionários".

Quando percebi e aceitei isso, eu finalmente tinha uma resposta para meu amigo. A questão não é onde traçamos o limite que define a violência "justificável", mas que estejamos traçando um limite pra começar. Todo o sistema global está nos atacando, matando pessoas, destruindo o planeta, e a idéia de auto-defesa, quando usada em um nível racional, pode ser usada para justificar violência contra quase todos que trabalham dentro do sistema. A principal questão é que a violência chega em seu ponto mais cruel quando é um ato racional - estatismo, a ciência ocidental, pena de morte, e regimes ditatoriais nos demonstraram esse princípio. Quando estabelecemos as conexões de alguém a vários mecanismos corporativos ou governamentais de assassinato e ecocídio, ao tentar decidir se são um alvo justificável para atos de auto-defesa, nós tiramos deles toda sua humanidade, toda sua essência como seres vivos e os transformamos em funcionários do poder. A maior violência acontece em nossas mentes, num nível metafísico, quando tornamos em trivial a dor que podemos causar justificando-a e ignorando-a de antemão.

Se alguém me ataca, pronto para me matar ou aprisionar, eu não preciso relacioná-los com um sistema maior de violência, e não preciso chegar a uma conclusão racional de se me defender usando a força seria justificável. Se a situação fica preta, todas as cartas são postas na mesa e as pretensões democráticas de nosso governo civil são deixadas de lado num momento revolucionário, então todos sabem qual é seu posicionamento, eu não preciso construir uma justificativa para mim mesmo de que a elite e seus capangas vão usar violência contra mim se eu permitir. Auto-defesa é um pressentimento instintivo e usá-lo racionalmente para decidir quando a violência é ou não justificável é sedar nossos instintos e colocar a vida, a morte e a dor numa esfera onde eles não podem ser devidamente valorizados.

Corporações e governos estão matando pessoas todos os dias. Existe um clima de guerra desenfreada pelo planeta. Nós devemos lutar e resistir. Eu reconheço a possível necessidade de usar a violência, machucar alguém, para libertar a mim mesmo e a outros. Mas deve ser um ato de paixão. Não devo reprimir a possibilidade de sentir culpa com um ato calculado e bem executado. Se na pior das hipóteses, você deva matar alguém, você deve ao menos respeitá-los e permitir-se chorar pelo que fez. E se você não sente nenhuma compaixão, pelo que exatamente você está lutando?

- um amigo da Anarquia Verde

quinta-feira, 7 de maio de 2009

SENTIMENTO FREEGAN

Você sabe o que é Freeganismo?

Segundo o site Freegan.info, "Freegans" são pessoas que adotam estratégias alternativas para viver baseados em uma participação limitada na economia e consomem o mínimo possível de produtos. Os freegans apóiam a comunidade, a generosidade, o interesse social, a liberdade, e a ajuda mútua, ao contrário da atual sociedade baseada em materialismo, apatia moral, competição, conformismo e cobiça.

O nome Freegan é derivado das palavras “Free” (livre, em inglês) e “Vegan”, que são pessoas que não consomem produtos de origem animal ou testado em animais. Os Freegans adotam um tipo de estilo de vida em que possam viver em harmonia com a natureza e com o mundo moderno. Pregam o retorno ao natureza, meios de transporte ecológicos, reciclagem, diminuir o desperdício, moradia livre de aluguel e menor carga de trabalho.
Entrevista com o grupo Erva Daninha sobre Freeganismo.

Por que e quando você decidiu se tornar um freegan? O que isso significa para você?
ED: Já fazem ao menos dez anos que pratico muitas das estratégias freegans (coleta de alimentos em fins de feiras, reutilização de móveis e outros objetos jogados no lixo e agricultura urbana). E fazem ao menos três anos que conheci a proposta freegan. Freeganismo é uma perspectiva que reconhece e age contra o sistema capitalista industrial, denunciando este modo de vida ambientalmente e socialmente tóxico. Um estilo de vida que se resume na humilhação diária de ter que acordar para fazer durante mais de 6 ou 8 horas geralmente coisas que não gostamos (trabalho) para pagar contas e comprar objetos que na realidade não precisamos, (objetos que em sua produção e manutenção acarretam em sérios impactos ambientais), reproduzindo então diariamente o capitalismo-industrial, que tem levado a Terra ao atual cenário de catástrofe ambiental. Freegans não querem fazer parte deste processo, freegans querem construir algo novo, não há modelos, mas o critério é apenas construir um modo de vida que não prejudique a Terra e seus vários habitantes.

O que mudou na sua vida depois de assumir tal comportamento? O que diferencia um freegan de uma pessoa comum (que consome como todas as outras)?
ED
: Eu pelo menos não gosto de ver como diferença, usar o ponto de vista da "diferença". Aqueles que adotam estratégias freegans apenas tentam ao máximo garantir sua liberdade individual, não colaborando com o sistema capitalista-industrial que suga nossas vidas em troca de mercadorias e destruição ambiental. Aqueles que adotam as estratégias freegans apenas se esforçam para criar uma atmosfera de autonomia, sustentabilidade, apoio mútuo e respeito a Terra.

Você pratica o 'dumpster diving', costuma procurar seu alimento no lixo?
ED
: No Brasil a estratégia mais facil e mais utilizada para obtermos alimento de forma freegan é a coleta de alimentos descartados em fins de feira. Diferente do dumpster diving onde em países como os Estados Unidos são bem mais praticados.

O grupo Erva Daninha foi montado em São Paulo? Quando?
ED
: Erva Daninha é uma iniciativa anarquista-verde, a nossa intenção é divulgar materiais relacionados a anarquia verde, freeganismo, de critica a civilização, libertação animal. Incentivando um questionamento quanto ao nosso estilo de vida e seu impacto no planeta. Sociedades de massas e industrialismo são maneiras de nos organizarmos incompatíveis com a natureza deste planeta. Resultado de um processo que vem se desenrolado a cerca de dez mil anos, com adoção e expansão da agricultura e domesticação de animais. Concordamos com Jared Diamond, quando afirma que a revolução agrícola "foi de muitas formas uma catástrofe da qual nós nunca mais nos recuperaremos".

Quantos freegans mais ou menos vocês calculam que existam no país? Esse número se concentra nos grandes centros urbanos como São Paulo e Rio?
ED:
Não temos como contabilizar quantos freegans existem no Brasil. Freeganismo na realidade não é um movimento, é mais um olhar e práticas do que um movimento fechado e definido.

Sei que vocês fazem um almoço comunitário às sextas-feiras, certo? Esse almoço é típico freegan? A comida é feita com alimentos pegos do lixo?
ED:
A iniciativa do almoço comunitário é feita pelo coletivo libertário Ativismo ABC, que tem como 'sede' a Casa da Largatixa Preta em Santo André. Toda sexta-feira as 11 horas é reunido um grupo de pessoas na Casa da Largatixa Preta, onde na própria rua da casa tem uma feira. Após reunido o grupo de pessoas vamos até a feira, que já está no final, recolher os alimentos que por não serem esteticamente vendáveis são descartados pelos feirantes como lixo. Depois é feito um banquete freegan.

Se vocês praticam o mergulho no lixo para encontrar comida, que cuidado tomam para não se intoxicarem com alguma coisa estragada, por exemplo? Já passou mal por alguma coisa que comeu?
ED:
No caso das feiras geralmente o que foi descartado estão em caixas ao lado das bancas, e os cuidados com higiene são de senso comum, tirar pedaços amassados e ruins, lavar os alimentos etc. Ninguém vai pegar aquilo que visivelmente está podre ou num lugar realmente sujo. A única vez que passei mal com os alimentos que coletei foi quando comi de teimoso algumas batatas verdes. Dois dias passando mal.

Qual a diferença que você identifica entre os freegans de outros países e os brasileiros? Você acredita que nós, brasileiros, temos outras preocupações?
ED:
Existem muitas diferenças em relação a todos os lugares onde o freeganismo é aplicado. Apesar de o freeganismo ser uma proposta orginalmente criada no meio anarquista-vegan, em alguns países o foco é mais voltado para a questão do consumo, perdendo um pouco o caráter de autonomia proposta pelos anarquistas, algo que por aqui Brasil tentamos não diferenciar, pois autonomia e uma vida em equilibrio com a Terra e outros animais são sinônimos. Uma diferença no Brasil em relação a países como os Estados Unidos e Inglaterra é que nestes países são encontrados mais alimentos industrializados. Enquanto que no Brasil a coleta de alimentos se concentram em fins de feira. Nos países mais ricos os alimentos que são encontrados geralmente são produtos industrializados. A realidade aqui no Brasil é diferente mas a preocupação é a mesma, boicotar o sistema capitalista industrrial adotando estratégias que constroem um modo de vida baseado na autonomia e respeito a vida.

Um freegan é necessariamente alguém que não come nada de origem animal ou podem existir freegans que comem carne, por exemplo? Qual a melhor definição, para você, de freeganismo?
ED: O freeganismo é uma proposta que surgiu entre os anarquistas vegans (ou vegans anarquistas). A princípio nenhum produto industrializado é vegan, pois todos os produtos encontrados na prateleira de um supermercado ou numa lanchonete são 'frutos' de um sistema que conspira contra a vida na Terra de todas as maneiras possíveis. Vasamento de petróleo, contaminação da água, expansão urbana, agricultura, e o impacto da construção e do funcionamento de uma auto-estrada são alguns exemplos claros de violência contra a vida animal. Existe sim a preocupação em não ingerir um produto de origem animal, e geralmente freegans se mantém vegans. Mas para nós a questão contra a exploração animal não é meramente o que você engoli ou veste.

Você se considera mais feliz vivendo como um freegan?
ED:
Adotar estrategias freegans muitas vezes me proporciona bons momentos, comer alimentos coletados na feira, ou de sua própria horta e prepará-los num fogão a lenha é uma situação muito boa.

FONTE : freegan.info

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TRILHA SONORA DO FILME "THIS IS ENGLAND".

Soundtrack do filme THIS IS ENGLAND com Maytals, Specials, entre outras. Não é um disco de SKA, mas uma coletânea das musicas do filme.

01-Toots and the Maytals - 54-46 Was My Number
02-Dexys Midnight Runners - Come on Eileen
03-SoftCell - Tainted Love
04-Underpass Flares (dialogue)
05-Gravenhurst - Nicole
06-Cynth - Dad (dialogue)
07-Al Murray and the Cimarons - Morning Sun
08-Shoe shop (dialogue)
09-Toots and the Maytals - Louie-Louie
10-Toots and the Maytals - Pressure
11-Hair in Cafe (dialogue)
12-The Specials - Do the Dog
13-Ludovico Einaudi - Ritornare
14-This is England (dialogue)
15-The Upsetters - Return of Django
16-Uk Subs- Warhead
17-Ludovico Einaudi - Fuori dal Mondo
18-Strawberry Switchblade - Since Yesterday
19-Tits (dialogue)
20-Percy Sledge - The Dark End of the Street
21-Ludovico Einaudi - Oltremare
22-Clayhill - Please, Please, Please. Let Me Get What I Want
23-Ludovico Einaudi - Dietro Casa
24-Gavin Clark - Never Seen the Sea

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UMA NOVA MOEDA - A AMIZADE:

Não é só com dinheiro que se faz economia. Que tipo de economia havia antes da civilização? Fala-se em trocas, mas isso serve para o comércio entre grupos. E quanto à economia dentro dos grupos, como funciona?

Também é um tipo de troca, mas não pode ser meramente material. Primeiro, vamos repensar nossos conceitos. Se estivermos falando de uma economia tribal, os verdadeiros bens dificilmente serão materiais. Afinal de contas, não é que os homens fossem mais conscientes da divisão justa dos recursos, é que não tinham motivos para fazer a divisão, uma vez que a produção não era centralizada. Como a dependência de ferramentas era pequena, as coisas materiais não tinham muita importância. Mesmo a comida não tinha dono, estava solta por aí. Será que se tratava de ser mais forte? Sozinhos os fortes não são nada. A verdadeira riqueza era medida pela sua capacidade de FAZER AMIGOS. Claro, parece estranho de se pensar, mas imagine: Tudo fica mais fácil de fazer quando temos cooperação de amigos. A cooperação mútua é o fundamento da economia tribal. Se você ajuda um amigo a fazer uma coisa e ele te ajuda a fazer outra, o ganho que é sempre coletivo. A adição de amigos, ao contrário do acúmulo de bens materiais, jamais causa desigualdade, porque um amigo a mais não representa um amigo a menos. Os grupos de afinidade, no entanto, precisam de poucos membros, mas não significa que devam se isolar e competir com outros grupos. É claro que uma amizade tem valor mesmo quando o amigo não nos pode ajudar com coisas materiais, mas também com idéias e sentimentos, que são tão ou mais importantes. As pessoas valorizam aqueles amigos que se mostram sinceros e gentis, então essa economia não é simplesmente materialista, ela envolve sentimentos. Posso dizer que ele é primariamente emocional, com materialidade meramente colateral, enquanto a nossa economia é primariamente material, como emoções meramente colaterais, às vezes indesejáveis. Se pudéssemos nos livrar das emoções, seríamos perfeitos para o nosso sistema. E ainda assim, não podemos nos livrar nem disto, nem da matéria.

Porque não aceitar ambos?

Vamos usar livros como exemplo: Como ler livros sem ter que comprá-los? Há milhares de livros juntando poeira nas estantes de pessoas que estão dispostas a emprestá-los para amigos. Algumas livrarias permitem que você leia o livro lá, especialmente se você se tornar amigo dos vendedores. As pessoas que lêem muito costumam a gostar de conversar sobre o que estão lendo, e você pode criar laços de afinidade com pessoas através da leitura, ou descobrir autores e obras interessantes que você nunca tinha ouvido falar. Apesar dos benefícios de comprar um livro e guardá-lo em casa, como um todo há muito mais vantagens em simplesmente não comprar o livro, e buscá-lo através de um amigo, com o qual você poderá conversar depois.

Uma vida mais simples começa com a baixa dependência do modelo econômico consumista. A amizade pode se tornar um modelo econômico mais sustentável e mais humano, porque não gera desigualdade e valoriza o que as pessoas têm de melhor. Nosso sistema inevitavelmente concentra riqueza nas mãos de poucos, dá vantagens para as pessoas mesquinhas e dissimuladas, além de nos forçar a ter relacionamentos frios e a ser antipáticos. Muitas coisas interessantes podem ser pensadas para esse novo sistema baseado na amizade.
Contribua com suas idéias.
Janos biro - largue.cjb.net

ALÉM DO FEMINISMO - ALÉM DO GÊNERO

A fim de criar uma revolução que possa por fim a todo tipo de dominação, é necessário acabar com as tendências a que todos nós nos vemos submetidos. Isto requer que sejamos conscientes do papel que esta sociedade nos impõe e busquemos seus pontos fracos, com o objetivo de descobrir seus limites e transgredir.
A sexualidade é uma expressão essencial dos desejos e paixões individuais, da chama que pode inflamar tanto o amor como a revolta. Assim pode ser uma força importante dos desejos de cada um de nós, que pode levantar-nos além da massa, como seres únicos e indomáveis. O gênero por outro lado, é um intermediário construído pela ordem social para inibir a energia sexual, enclaustrá-la e limita-la, direcionando-a a fazer a reprodução desta ordem de dominação e submissão. Desta maneira, o gênero se converte em um impedimento da vontade de decidir livremente como queremos viver e nos relacionar. Não obstante, até agora, ao homem foi concedida maior liberdade de fazer valer sua vontade dentro destes papéis do que a mulher, o que explica de forma bastante razoável porque existem mais anarquistas, revolucionários e gente que atua fora da legalidade que são homens e não mulheres. As mulheres que foram fortes, que tem se rebelado, fizeram isso porque superaram sua feminilidade.

Lamentavelmente o Movimento de Liberação da Mulher (MLM) que ressurgiu nos anos 60, não prosperou no desenvolvimento de uma análise profunda da natureza da dominação em sua totalidade e do papel jogado pelos gêneros em sua reprodução. Um movimento que apareceu diante da necessidade de nos livrar dos papeis de gênero para sermos assim indivíduos completos e auto-suficientes, foi transformado em uma especialização como a maior parte das lutas parciais da época. Garantindo desta maneira a impossibilidade de levar a cabo uma análise global dentro deste contexto.

Esta especialização é o feminismo atual, que começou desenvolvendo-se fora do MLM nos finais dos anos 60. Seu objetivo, não era tanto a liberação da mulher como individualidade dos limites impostos pelos papéis atribuídos a seu gênero, como a liberação da "mulher" como categoria social. Junto às correntes políticas principais, este projeto consistiu em obter direitos, reconhecimento e proteção para as mulheres como uma categoria social, reconhecida conforme a legislação. Em teoria, o feminismo radical se moveu para além da legalidade com o objetivo de liberar as mulheres como uma categoria social, da dominação masculina. Dado que a dominação masculina não é explorada suficientemente como parte da dominação total -inclusive pelas anarcofeministas- a retórica do feminismo radical, frequentemente adquire um estilo similar aos de lutas de liberação nacional. Mais apesar das diferenças no método e na teoria, a prática feminista liberal (burguesa, principal) e o feminismo radical frequentemente são coincidentes. Isto não é uma casualidade.

A especialização do feminismo radical consiste em centrar-se por completo nos sofrimentos da mulher nas mãos de homens. Se a catalogalização fosse alguma vez completada, a especialização não seria durante mais tempo necessária e havia chegado o momento de traduzir-se mais além da lista de ofensas sofridas, até uma vontade real e atual analisar a natureza da opressão da mulher nesta sociedade e levar a cabo ações reais e muito meditadas para acabar com esta opressão. Assim que a manutenção desta especialização requer que as feministas ampliem este catálogo infinito, inclusive até o ponto de dar explicações pelas ações opressivas levadas a cabo por mulheres em postos de poder, como expressões do poder patriarcal, e assim desta maneira liberaria estas mulheres da responsabilidade de suas ações. Qualquer analise séria das completas relações de dominação, como as que existem atualmente, é deixada de lado a favor de uma ideologia na qual o homem domina e a mulher é a vitima da dominação.

Mas a criação de uma identidade com base na própria opressão, sobre a vitimização sofrida, não proporciona a força ou a independência. No lugar disto, cria uma necessidade de proteção e segurança que eclipsa o desejo de liberdade e independência. No reino do teórico e psicológico, uma abstrata e universa "irmandade feminina" pode encontrar essa necessidade, mas a fim de fornecer uma base para esta irmandade, da "mística feminilidade", a qual foi exposta nos anos 60 como uma construção cultural que apoiava a dominação masculina, é revivida em forma de espiritualidade de mulher, culto a deusa e uma variedade de outras ideologias feministas. A vontade de liberar a mulher como categoria social, alcança sua apoteose na recriação dos papeis do gênero feminino em nome de uma alusiva solidariedade de gênero. O feito de que muitas feministas radicais haviam recorrido a policiais, tribunais e outros programas estatais de proteção de mulheres (imitando assim o feminismo burguês.) só serve para sublinhar a falsa natureza da "irmandade" que proclamam. Apesar de ter havido tentativas de mover-se além destes limites dentro do contexto do feminismo, esta especialização foi sua melhor definição durante três décadas. Na forma em que foi praticado falhou ao apresentar um desafio revolucionário tanto contra o gênero como contra a dominação. O projeto anarquista de liberação global nos chama para nos movermos além destes limites até o ponto de atacar o gênero em si mesmo, com o objetivo de converter-nos em seres completos, definíveis não como um conglomerado de identidades sociais, senão como únicos e completos indivíduos.

É um estereótipo e um erro afirmar que os homens e mulheres têm sofrido iguais opressões dentro de seus papéis de gênero. Os papéis do gênero masculino permitem ao homem uma grande liberdade de ação para afirmação de sua própria vontade. Por isso a liberação da mulher de seus papéis de gênero não consiste em ser mais masculina senão em ir bem mais além de sua feminilidade, assim para os homens a questão não é ser mais feminino senão ir bem mais além de sua masculinidade. A questão é descobrir que o centro da unicidade que está em cada um de nós, vai mais além de todos os papéis de gênero e da forma em que cada um atua, vive e pensa no mundo, tanto no domínio sexual como em todos os outros.

Separar o gênero em função da sexualidade, desde a totalidade de nosso ser, fixando características especificas segundo o gênero ao que se pertence, serve para perpetuar a atual ordem social. Como conseqüência disso, a energia sexual, que poderia ser um extraordinário potencial revolucionário, é canalizada para reprodução das relações de dominação e submissão, de dependência e desespero. A miséria sexual que isto tem produzido e sua exploração comercial está por todos os lados. A chamada inadequada dos povos a "abraçar tanto a masculinidade como a feminilidade" cai em falta de análise sobre estes conceitos, já que ambos são invenções sociais que servem aos propósitos do poder.

Assim, mudar a natureza dos papeis do gênero, aumentar seu número ou modificar sua forma é inútil sob uma perspectiva revolucionaria, já que isto só serve para ajustar mecanicamente a forma de condutas que canalizam nossa energia sexual. No lugar disto, necessitamos nos reapropriar de nossa energia sexual para reintegrá-la na totalidade de nossos seres a fim de fazer-nos extensos e poderosos como para explorar cada conduto e inundar o terreno da existência com nosso ser indomado. Isto não é uma tarefa terapêutica, senão uma revolta insolente - uma que emane desde nossas forças e nossa recusa a retroceder. Se nosso desejo é destruir toda dominação, então é necessário que nos movamos além de tudo o que nos reprime, além do feminismo e além do gênero, porque aqui é onde encontramos a capacidade de criar nossa indomável individualidade que nos conduzirá contra toda dominação sem vacilação. Se desejarmos destruir a lógica da submissão, este deve ser nosso mínimo objetivo.

Willful Disobedience Vol. 2, No. 8. (tradução : celula zero)

quarta-feira, 6 de maio de 2009

THIS IS ENGLAND - Legendado.

THIS IS ENGLAND
Shaun, um menino de 12 anos, que vive com a mãe em uma cidade do interior da Inglaterra e cujo pai morreu na Guerra das Malvinas é constantemente agredido na escola e acaba se juntando a um grupo de skinheads (SHARPS). Desde então a vida do garoto se transforma num constante carrossel de aventuras até a chegada do estranho Combo.
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PORQUÊ ME TORNEI FREEGAN PELOS ANIMAIS


Há muitas boas razões para se tornar freegan, mas foi principalmente a questão dos direitos dos animais que me levou a adotar esse estilo de vida.

Eu poderia passar anos tentanto viver mais eticamente, tentando limitar a violência contra os animais em meu estilo de vida. Me tornei vegetariano, depois vegan, depois passei a consumir só alimentos orgânicos, principalmente alimentos crus. Eu estava preocupado com todos os animais mortos por pesticidas na agricultura convencional - incluindo os insetos e outros invertebrados que frequentemente são ignorados por muitos que se importam com os direitos dos animais.

À medida que aprendia mais sobre agricultura orgânica, comecei a perceber que até mesmo a agricultura orgânica não era perfeita. Encontrei um artigo na revista "Animals's Agenda" chamado: "Alimento orgânico: bom, mas não benigno" sobre uma horticultora que falava sobre como até mesmo utilizando métodos de agricultura orgânica, ela ainda matava milhares de insetos. Comecei a ler revistas sobre agricultura e jardinagem orgânica e aprendi que matar animais era algo comum no método de agricultura orgânica (e mais comum ainda na horticultura não-orgânica também). Caça, uso de armadilhas, envenenamento, e afogamento são métodos usados para matar qualquer criatura de um minúsculo inseto a um grande mamífero. Até mesmo formas de combate biológico são usadas - já que agricultores orgânicos não podem usar pesticidas a base de petróleo, muitos soltam bactérias vivas para destruírem os insetos.

Nesse tempo, uma professora de colegial fez um comentário sobre como os animais são cortados em pedaços e amassados no processo da colheita do milho, me fez cada vez mais ciente do impacto que arar o solo e colher grãos têm sobre o enorme número de animais que vivem nas fazendas e hortas. Essa questão foi na verdade o foco de um recente estudo da Universidade do Estado de Oregon que analisou o impacto da agricultura na vida selvagem e concluiu que comer um pedaço de carne de um animal criado no campo na verdade resulta em MENOS mortes animais do que se alimentar com uma dieta vegan padrão. Enquanto outro estudo disputou essa conclusão, a opinião de Davi é que "as dietas vegans não são dietas sem sangue", afirma.
O escritor Ted Kerasote (que é caçador) levantou outras questões sobre a natureza "livre de crueldade" de um vegan. No livro "Laços de Sangue: A Natureza, a Cultura e a Caça" (Bloodties: Nature, Culture, and the Hunt) ele diz: "O que exatamente significa "o mínimo de mal possível"? Significa se tornar um vegetariano de combustível fóssil - aquelas pessoas que com consciência limpa compram vegetais nos supermercados, jamais imaginando que as fazendas-indústria de animais, intensivamente subsidiadas pelo petróleo, que de sua fonte à ceifadeira, e pelo sistema de rodovias, inflingindo enormes tributos da vida selvagem enquanto eles cultivam e fornecem esses produtos aparentemente benignos como cereal, pão, feijão e leite? Ou fazer o mínimo de mal possível significa se tornar um agricultor orgânico, cultivando tudo que ele precisa em volta de sua casa? Poderia significar caçar a colher os animais e plantas de sua região?"

E é claro, que como defensores do animais, nós rejeitamos tanto a criação de um animal para alimentação quanto a caça. Mas se DE FATO nossos estilos de vida são MUITO MAIS destrutivos que essas práticas, então somos obrigados a questionar se existe uma outra alternativa, uma que seja melhor do que caçar, melhor do que a alimentação de animais criados para o abate, e melhor do que Kerosete chama de "vegetariano de combustível fóssil".

Lendo sobre um sistema bastante incomum de agricultura chamado "horticultura vegânica", um sistema que usa plantas como fertilizantes, pude perceber que os grãos vegans que comemos são cultivados com a indústria de agricultura animal com produtos como esterco ou ossos de animais (farinha de ossos). E isso é totalmente real nas fazendas orgânicas, uma vez que eles não podem usar fertilizantes químicos. Então, sendo um consumidor vegan, na verdade eu estava criando mais lucro para os pecuaristas!

Finalmente, quando é que nossa responsabilidade sobre o impacto do nosso dinheiro termina? Eu não me lembro se na época pensei sobre isso, mas recentemente eu li um artigo sobre uma pessoa que era freegan porque ele repugnava a idéia de que o dinheiro que ele gastava com alimentos vegans iria pagar pela carne para os não-vegans de quem ele comprou aquela comida.

Trocando o consumismo varejista pela colheita de alimentos naturais, por uma horticultura em pequena escala e que respeite a terra e os outros seres, não utilizando métodos de arar ou "orgânicos", e também optando por estratégias de colheita urbana, nós evitamos de contribuir com TODOS os meios de produção dos produtos, não somente aquelas que costumam ser o alvo do veganismo tradicional. Somos pioneiros em uma relação mais cuidadosa com os animais, à medida que construimos uma nova cultura baseada na divisão, cooperação, e respeito pela Terra e uns aos outros.

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ANARQUIA vs. ANARQUISMO


Nota: este tópico faz parte do texto Uma introdução ao pensamento e pratica anarquista anti-civilização, Green Anarchy Collective

Um fator que nós achamos ser importante para começar este texto é a distinção entre "anarquia" e "anarquismo". Alguns poderão entender isso como uma pura questão trivial ou semântica, mas para muitos pós-esquerdistas e anarquistas anti-civilização, esta diferenciação é importante. Enquanto o anarquismo serve como um importante ponto de referência histórica do qual se extrai inspirações e lições, ele tem se tornado muito sistemático, fixo e ideológico - tudo o que a anarquia não é. Admitidamente, a anarquia tem muito pouco a ver com a orientação social/política/filosófica do anarquismo e mais a ver com aqueles que se identificam como anarquistas. Sem dúvida, muitos de nossa “linhagem” anarquista ficariam desapontados por esta tendência em solidificar algo que deveria estar sempre fluindo. Os primeiros que se identificaram como anarquistas (Proudhon, Bakunin, Berkman, Goldman, Malatesta e outros) respondiam a seus contextos específicos com suas próprias motivações e desejos específicos. Muito frequentemente, os anarquistas contemporâneos vêem estas pessoas como representantes e fundadores da anarquia, e criam uma atitude do tipo "o que Bakunin faria" (ou melhor, "pensaria") a respeito da anarquia, o que é trágico e potencialmente perigoso. Hoje, os que se identificam como anarquistas "clássicos" se recusam a aceitar qualquer realização em um território desconhecido dentro do anarquismo (ex.: primitivismo, pós-esquerdismo, etc.) ou tendências que têm estado frequentemente em desacordo com a aproximação com o movimento de massa dos trabalhadores (ex.: Individualismo, Niilismo, etc.). Estes anarquistas rígidos, dogmáticos e extremamente não-criativos foram muito longe em declarar que o anarquismo é uma metodologia social/econômica de organizar as classes trabalhadoras. Isso é obviamente um extremo absurdo, mas tais tendências podem ser vistas nas idéias e projetos de muitos anarco-esquerdistas contemporâneos (anarco-sindicalistas, anarco-comunistas, plataformistas, federacionistas, etc.).
O "Anarquismo" como se encontra hoje, é uma ideologia muito esquerdista, a qual nós devemos ir além. Em contraste, a "anarquia" é uma experiência sem forma, fluída e orgânica que abraça visões multifacetadas de libertação tanto pessoal quanto coletiva e sempre aberta. Como anarquistas nós não nos interessamos em formar uma nova estrutura ou conjunto de regras para viver e seguir, por mais "ética" ou "discreta" que pareça ser. Os anarquistas não podem oferecer um outro mundo para as pessoas, mas nós podemos levantar questões e idéias, tentar destruir toda dominação que impede nossas vidas e nossos sonhos e vivermos diretamente conectados com nossos desejos.

Abrindo as Gaiolas com a ALF

Uma Entrevista de Derrick Jensen com David Barbarash
Publicado no Earth First! Journal, Yule 2002

DJ: O que é a ALF?
DB:
A Frente de Libertação Animal não é realmente uma organização, mas é mais um movimento internacional de ativistas de libertação animal que acreditam que os métodos convencionais de protesto não são o suficiente para obter os objetivos da libertação animal, e que existe uma justificativa moral para agir fora da lei. Os ativistas operam anonimamente, geralmente à noite, em estruturas de células de duas a oito ou mais pessoas. Algumas vezes você pode ter um ativista da ALF saindo sozinho indo pichar um muro, mas geralmente até para ações simples como essa você vai querer alguém observando a rua.
Os membros da ALF seguem um código rígido de não-violência. Isso significa que não ocorrerá dano, ferimento ou morte para quaisquer animais, humanos ou não-humanos, durante qualquer ação. Nós não consideramos que a destruição de propriedade seja uma ação violenta, porque nós não acreditamos que você possa causar violência contra algo que não está vivo, que não pode sentir dor.
Os objetivos da ALF são de libertar os animais de laboratórios ou outros lugares de abuso. Nós os libertamos na natureza sempre que possível, como no caso das fazendas de peles de raposas ou martas. Por razões óbvias os animais libertados de laboratórios não são soltos na natureza, mas são postos em lares. Na verdade encontrar lares para estes animais faz tanta parte da ação quanto retirá-los dos laboratórios.
Além de libertar animais, a ALF participa no que nós chamamos de sabotagem econômica: nós destruímos propriedade usada para abusar, torturar, e matar animais. Nós traçamos um paralelo com os lutadores da liberdade na Alemanha Nazista, que libertaram prisioneiros de guerra e destruíram equipamentos utilizados pelos Nazistas para torturar ou matar suas vítimas. Existia uma justificativa moral para agir naquela época, e nós acreditamos que exista hoje também.
A ALF não possui uma hierarquia de espécie: nós não colocamos os humanos acima dos animais como também dos seus direitos inerentes de viver, e de viver sem serem torturados. Nós não vemos uma diferença fundamental entre um humano morto em uma câmara de gás na Alemanha Nazista ou uma marta morta por gás em uma fazenda de peles.

DJ: Qual o objetivo da ALF? São seis pessoas fazendo uma ação por ano?
DB:
É difícil medir o objetivo porque nós não ficamos sabendo de todas as ações, por exemplo pichar paredes, ou ir ao McDonald’s e quebrar janelas. Nós ouvimos sobre as ações principais - os incêndios, as libertações - e nos últimos anos têm ocorrido um aumento significativo nas ações contra laboratórios e em instalações de pesquisa de universidade. Antes disso, esses tipos de ações haviam caído por um bom tempo, já que essas instalações haviam ficado mais cientes de nossas táticas e aumentaram sua segurança. Mas no último ano nós tivemos quatro ou cinco ataques contra instalações de pesquisa de universidade ou laboratórios de vivissecção na América do Norte, incluindo a libertação dos animais destes laboratórios, além de um número de ataques menores a abatedouros, lojas de peles, fazendas de peles, e assim por diante. Nós também estamos vendo um aumento no uso de incêndio pelo uso de dispositivos incendiários.

DJ: O que, é claro, necessita retirar os animais primeiro.
DB:
Incêndios não são feitos em estruturas onde vidas possam estar envolvidas. Eu acho que é possível que se todos os animais fossem soltos a instalação seria queimada, mas normalmente a ALF só é capaz de remover uma certa porcentagem desses animais.

DJ: Como alguém escolhe quais remover?
DB:
É difícil, especialmente quando você sabe o que vai acontecer com aqueles que você deixa para trás. Eu encarei esse dilema em um ataque que fiz em Edmonton. Nós retiramos vinte e nove gatos, mas tivemos que deixar o resto para trás. Nós também tivemos que deixar cães, e todo o tipo de outros animais. Você tem que encontrar lares para os animais antes de fazer a ação, então se você encontrou lares para trinta gatos e cinco cachorros, é tudo o que você pode levar, ao menos que você queira correr o risco de achar um lar depois.
Por razões básicas de segurança, as pessoas que acolhem os animais não são as mesmas que os libertam. Ao invés disso as pessoas que criam santuários para esses animais fazem parte de uma rede solta que nós chamamos de Underground Railroad (ferrovia subterrânea), em nome ao movimento de libertação dos escravos norte-americanos.

DJ: Então existe uma grande rede de suporte.
DB:
Como é verdade para qualquer rede clandestina ou revolucionária, a ALF não seria tão efetiva se não houvesse uma rede de suporte. Eu não tenho nenhum contato direto com os membros da ALF, mas eu sou considerado uma parte da rede de suporte, porque eu sou o contato de mídia. E então existe um grupo de suporte em Guelph, Ontario, que levanta fundos para ativistas aprisionados da ALF, e publica ações e outras questões em sua revista, a Underground. Além disso, existe uma rede informal de ativistas de direitos dos animais no movimento não-clandestino que apóia o trabalho da ALF. A Underground Railroad hospeda animais resgatados e algumas vezes até ativistas da ALF. Sem o apoio dessas pessoas, a ALF não seria tão bem sucedida.

DJ: Como o contato é feito entre os libertadores e a Underground Railroad sem entregar as identidades dos libertadores?
DB:
Isso é um risco. Os ativistas da ALF têm que pessoalmente se aproximar de indivíduos que eles acham que são simpatizantes e se importam com os animais. Quando eu falo sobre a Underground Railroad, eu não quero dizer que existe uma rede formal comunicando uma com a outra. Em vez disso, é um grupo informal de pessoas que se importam com os animais e estão dispostas a cuidar deles. Se realmente existirem preocupações quanto à segurança, o ativista da ALF terá um intermediário em que confia para fazer o contato. A ALF sempre opera na base de que uma pessoa só sabe do que precisa saber, geralmente somente conversando sobre ações entre eles mesmos. Se os ativistas são espertos o bastante, eles não se gabam sobre suas ações para outras pessoas, ou usam o telefone, ou qualquer coisa assim.

DJ: De onde a ALF veio?
DB:
Começou no Reino Unido em 1976. Antes disso, na década de 60 e no início da de 70, os ativistas de direitos dos animais começaram a Associação de Sabotadores da Caça, que sabotava as caças às raposas soprando apitos, chamando os cachorros, e assim por diante. Esse movimento continua até hoje: é muito amplo, e forte o suficiente que até o governo do Partido Trabalhista do Tony Blair está considerando banir a caça às raposas. Essa era realmente uma questão perfeita para começar, já que a caça às raposas é um alvo bem fácil. É tão cruel, e existem questões óbvias de classe envolvidas.
No começo dos anos 70 alguns membros da Associação dos Sabotadores da Caça formaram uma outra organização chamada Band of Mercy para que eles pudessem concentrar em outras questões, e também para que eles pudessem começar a empregar outras táticas, como destruição de propriedade. Em 1973 a Band of Mercy incendiou uma companhia farmacêutica, e em 1974 e 1975 eles libertaram animais de criadores de animais para laboratório e de laboratórios de vivissecção.
Alguns desses ativistas eventualmente foram presos. Quando Ronnie Lee foi preso em 1976, ele reformou a Band of Mercy para a Frente de Libertação Animal. Em 1979 eles fizeram sua primeira aparição na América do Norte, quando um grupo sob a bandeira da ALF atacou a Universidade de Nova York e libertou dois cachorros. Eles surgiram no Canadá em 1980 com um ataque ao Hospital para Crianças Doentes onde eles libertaram alguns gatos. Esse ataque levou à famosa foto que apareceu na primeira página do Toronto Star de um gato sem orelhas. Pelos últimos vinte anos as ações têm acelerado.
Os últimos anos têm visto o desenvolvimento da ELF, ou Frente de Libertação da Terra. Uma ramificação do Earth First!, eles são similares à ALF em suas táticas e filosofia, exceto que seu foco se expandiu para incluir a terra e a ecologia como também os animais.
Sendo uma organização muito mais nova, a ELF não tem tantas ações assim, mas tiveram algumas bem grandes. Eles são os responsáveis pelo ato mais caro de sabotagem econômica da América do Norte, queimando cinco estruturas, incluindo um imenso restaurante, em um estação de esqui próxima de Vail, Colorado.
A estação de esqui estava expandindo em uma área pública sem estradas - alguns dos últimos habitats do lince no estado - em um ataque massivo de destruição ambiental (e bem-estar corporativo). Cinco dias depois das tentativas de consertos legais acabarem e ser dada a permissão de continuar a expansão da estação de esqui, os ativistas da ELF queimaram as construções, custando à corporação responsável doze milhões de dólares. Desde então um grande júri foi reunido, que almejou ambientalistas locais, mas nenhuma acusação jamais foi feita, ou os suspeitos identificados. Eu acho que o ato mais custoso de sabotagem econômica antes desse na América do Norte foi em 1987, quando a ALF queimou o UC Davis Diagnostic Laboratory, que estava sendo construído. O custo desse foi de cerca de cinco milhões de dólares.
Eu preciso acrescentar que quando nós falamos sobre os custos da sabotagem econômica, estes são apenas os custos imediatos. Nós esperamos, é claro, que nós possamos convencê-los a não reconstruírem, correndo o risco de enfrentarem conseqüências similares de novo. Mas mesmo que eles reconstruam, as ações irão continuar a custar-lhes porque eles terão que aumentar a segurança. E eles sabem que sempre serão um alvo.
Existem outros custos que são associados com sabotagem, também. Se você apenas queimar uma estrutura como um armazém de alimentos de fazendas de peles, você vai causar danos de um milhão e meio de dólares, e é isso. Mas se você destrói os equipamentos de computador em um laboratório de uma universidade, você estará retirando de cinco a dez anos de pesquisa, muito do que terá de ser refeito, ou até mesmo perdido para sempre.

DJ: Eu leio todo o tempo - talvez algumas vezes por mês - sobre ativistas destruindo plantações criadas por engenharia genética. Isso é da ELF?
DB:
Algumas vezes. Mas muitas dessas ações foram reivindicadas por vários grupos como o Reclaim the Seeds, Future Farmers of America, e assim por diante. Esses grupos estão aparecendo em todos os lugares; existe um descontentamento enorme com o status quo, e está se manifestando em todo lugar em forma de ações.

DJ: A ALF faz algum tipo de ação hacker?
DB:
Existia uma facção da ALF chamada algo em torno de ALF Internet Task Force que atacavam empresas com um programa chamado floodnet, gerando um número enorme de emails em certas contas e assim sobrecarregava seus sistemas. Eles fizeram isso algumas vezes, e não ouvi falar mais deles. Eu sei que essas ações ocorrem todo o tempo, mas é muito raro elas serem reivindicadas pela ALF ou qualquer outro grupo.

DJ: Quão heterogênea é a ALF?
DB:
Por ser um movimento clandestino, nós obviamente não temos um número preciso. Mas nós temos uma idéia baseado em quem é preso e condenado. Na América do Norte nós tivemos todos o tipos, desde jovens garotos punks, adolescentes anarquistas, pessoas em seus vinte e trinta anos como eu mesmo e meu parceiro resgatador de gatos, Darren Thurston, até avós e mulheres mais velhas como as Chatham Five, que foram condenadas por soltarem martas de uma fazenda de peles em Chatham, Ontario.
Já ocorreram um bom número de estudos no movimento de direitos dos animais, e eles costumavam dizer que o ativista de direitos dos animais médio era uma mulher branca, de meia-idade e de classe média. Eu não tenho certeza que isso ainda é verdade. Eu acho que a ALF é composta dessas pessoas, e pessoas com dreads, e pessoas que acreditam que os direitos dos animais sejam o único problema e não se preocupam com outras questões de justiça social, e pessoas que estão cientes do racismo, sexismo, homofobia, e que trabalham em todas essas questões. Eu tenho que dizer, entretanto, que pelo menos por agora não existem muitas pessoas de cor no movimento, com algumas exceções, como Rod Coronado, que é meio Índio Yaqui, meio Mexicano.

DJ: Eu já ouvi falar dele.
DB:
Como eu mesmo, Rod Coronado esteve envolvido com ação direta não-violenta por muitos anos. Eu me lembro em 1989 quando eu e quatro amigos estávamos sendo acusados em Toronto por picharmos uma loja de fast-food da KFC e de outras ações menores da ALF, Rod e dois de seus amigos estavam com acusações similares em Vancouver. Mas antes disso ele se responsabilizou por uma ação da Sea Shepherd que envolveu fazer rombos em navios baleeiros e destruir uma fábrica de processamento. Rod também passou tempo na prisão por liderar uma campanha da ALF contra a indústria de peles que envolveu soltar animais e incendiar laboratórios de pesquisa de peles.

DJ: Como você responde ao rótulo que vocês tem tão frequentemente da impressa corporativa, sobre serem ecoterroristas ou terroristas de direitos dos animais?
DB
: Eu rejeito completamente o rótulo terrorista. As pessoas que possuem um interesse especial em abusar ou matar animais não vão querer entender sobre o que é a ALF, e irão tentar se certificar de que ninguém mais entenda também. Então eles retratam os ativistas da ALF ou ELF como terroristas. Mas aqui está a minha pergunta para eles: Onde está a contagem dos corpos? Me mostrem as pessoas que morreram ou se feriram como um resultado das ações de libertação animal. Me mostrem até mesmo um bombeiro ferido enquanto apagava um fogo causado pela ALF. Eles não podem, porque ninguém jamais foi ferido.
Apesar disso, eu te conto o que têm acontecido. Os ativistas têm sido atacados com bombas. Os ativistas têm levados tiros. Eu posso te mostrar pessoas que foram espancadas e postas no hospital em protestos comuns contra peles, e pessoas que tiveram todos os seus dentes golpeados com tacos de baseball. Eu posso te contar sobre ativistas da ALF que levaram tiros nas costas. Eu posso te mostrar uma lista de abusadores de animais - pessoas que violentam animais como um modo de vida - que utilizaram violência como uma forma de combater libertadores de animais. Eu não consigo achar um caso de uma vítima de violência de um libertador animal, mas mesmo assim nós somos o que são rotulados de terroristas. É absurdo.

DJ: E quanto às lâminas de barbear?
DB:
Um grupo chamado Justice Department, uma facção extrema do movimento de libertação animal, disse que eles estão dispostos a ferir humanos para ir mais adiante com os objetivos da libertação animal. Eles fizeram essas campanhas de mandar cartas com armadilhas com lâminas de barbear na Inglaterra, nos E.U.A. e no Canadá, tendo como alvos indivíduos associados com crueldade animal e abuso. Não é incomum na sociedade humana ter pessoas inclinadas a fazerem violência e ferir os outros, e o movimento de libertação animal não é diferente. O mesmo vale para os anti-aborcionistas, os liberacionistas dos negros, os soberanistas nativos, e outros. O Justice Department é claramente uma pequena minoria, e a vasta maioria dos defensores dos direitos dos animais são não-violentos. Mas mesmo quando você analisa as ações de lâminas de barbear do Justice Department e a quantidade de dano que eles realmente podem causar em alguém, como isso se compara com o que os animais em laboratórios enfrentam ou com aqueles que são caçados? Eu não vou justificar esse tipo de violência, porque eu não acredito nela, mas eu não acho que causar cortes de lâminas em dedos se iguala a terrorismo, não comparado com o que é infligido em ativistas por abusadores de animais, e certamente não comparado ao que, por exemplo, o exército americano faz como rotina, e absolutamente não comparado com a vasta tortura de animais não-humanos no qual nosso sistema é baseado.

DJ: Mesmo se incluirmos os cortes por lâminas - e eu percebo que as lâminas não foram enviadas pela ALF - parece que o nível de esforço em oprimir a ALF é geralmente bem maior do que o dano - e eu não estou pensando sobre os liberacionistas e sabotagem - que eles na verdade fazem.
DB:
O nível de repressão é bem maior somente se você usa uma filosofia de senso comum sobre como o mundo deve funcionar. A ALF pode não ser perigosa em termos de danos reais que causamos, apesar de termos causado milhões de dólares em danos às indústrias como as fazendas de peles, mas nós somos muito perigosos filosoficamente. Parte do perigo é que nós não acreditamos na ilusão de que propriedade vale mais do que a vida, o que é uma das suposições fundamentais e geralmente não declaradas de nossa cultura. Nós trazemos essa prioridade insana à luz, o que é algo com que o sistema não pode sobreviver.
Eu me lembro de que quando eu estava na prisão por ter libertado gatos e criado um pouco de destruição de propriedade - não usando fogo ou algo assim, apenas pichando - me negaram fiança porque, como o juiz disse, eu “era um perigo para o público.”

DJ: E você é vegan. . . .
DB:
Eu nem mesmo como mel, porque eu não gosto de ferir qualquer ser vivo. Mas durante meu tempo encarcerado eu vi pessoas virem e irem pela porta giratória da cadeia, pessoas que batem em suas esposas ou namoradas, que entravam em brigas nas ruas, que esfaqueavam pessoas. Para eles, a fiança custava geralmente entre 500 a mil dólares.
Nós pedimos ao juiz até mesmo para colocar minha fiança em um preço ridiculamente alto, como $100.000, mas ele não aceitou. Realmente existe algo de errado com nossa cultura. Se você espanca um estrangeiro, não é um problema. Se você espanca sua esposa ou sua namorada, não é um problema. Se você comete crimes por motivos puramente egoístas - você quer ficar rico, você quer coisas - não é um problema. Mas se você comete crimes por razões políticas, é perigoso, porque ameaça as estruturas em que nossa sociedade está baseada. As indústrias de exploração animal como a agricultura animal, pesquisa médica, e a indústria farmacêutica formam algumas das bases de nossa sociedade. Elas estão no centro do que nós chamamos de civilização.
Mas existe outra razão para a repressão. Os ativistas da ALF e da ELF organizam-se em uma estrutura bem anarquista, e são peritos em agirem sem serem pegos, e sem deixarem provas. Eles sabem como utilizar segurança de internet, eles sabem como viajarem anonimamente, e eles sabem como criar fundos para suas ações. Mas aqui está: na maior parte os ativistas são pessoas bem normais, vivendo vidas normais, muitos até tendo empregos normais. Isso é uma ameaça real para o estado, porque eu acho que aqueles no poder entendem - talvez não em um nível consciente, mas certamente em suas entranhas - ao que isso poderia levar quando um número suficiente de pessoas normais decidirem que cansaram dessa ilusão de sociedade, e querem fazer algo sobre isso, querem fazer uma mudança. Não necessariamente por razões de libertação dos animais ou da terra, mas porque eles estão cansados de receberem seis dólares por hora por uma porcaria de emprego, ou serem incomodados pelos policiais por causa da cor da pele, ou eles estão simplesmente cheios porque eles querem viver vidas genuínas, sentindo emoções genuínas, e fazendo algo significativo.
Talvez até mais importante do que as ações de libertação e sabotagem são as idéias e as possibilidades que a ALF e a ELF oferecem para pessoas normais sobre como eles podem se organizar e agirem de uma maneira segura, focada e direta.

DJ: Eles também oferecem vitórias tangíveis, algo que é extremamente raro pelo menos no movimento ambiental.
DB:
Nós estamos vendo vitórias no movimento de libertação animal, mais na Europa e na Inglaterra do que aqui. Nós estamos começando a ver proibições de fazendas de peles em países como a Bélgica, ou governos locais adotando medidas como banir animais em circos ou a importação de baleias e golfinhos selvagens.
A indústria de peles está dizimada na Inglaterra, onde só algumas fazendas de peles permanecem. Por protestos contínuos e ataques, nós conseguimos fechar o principal criador de gatos para pesquisas de laboratório, como também muitos criadores de cães para pesquisa. A Inglaterra é um caso especial, porque existe um movimento muito forte lá, mas em todos os lugares nós estamos ganhando essas vitórias reais, realmente fechando esses lugares de tortura.

DJ: Eu adoro o fato de que mesmo quando as ações são pequenas, os ativistas ainda estão tomando a ofensiva. A maioria de nossas batalhas ambientais são puramente defensivas: tentando impedir esse ou aquele pedaço de destruição.
DB:
As ações são sobre tomar responsabilidade. É nisso que a ALF se baseia. Está dizendo, “Eu estou cansado de esperar que as pessoas a que estamos fazendo petição ajam para parar o abuso animal, porque eles ou não o estão fazendo ou estão demorando demais e os animais ainda estão morrendo.” Se eu não vou tomar responsabilidade pelo sofrimento desses animais, a dor desses animais, que eu sei que está continuando todos os dias, toda hora, eu realmente tenho que tomar alguma ação para parar com esse insulto moral.

DJ: Eu li na imprensa corporativa que a ALF vai roubar os animais de estimação das pessoas.
DB:
É claro que não. Para onde você pensa que os animais que libertamos dos laboratórios vão?
Eu tenho que ser claro sobre como a ALF escolhe seus alvos. Cada célula individual decide por ela mesma em quê elas irão concentrar, e quais táticas irão usar. Uma célula pode decidir concentrar em libertação de galinhas e podem escolher atacar uma granja industrial e salvar algumas galinhas. Outro grupo da ALF pode escolher as fazendas de peles e soltar martas. E outro pode ter como alvo caminhões de carne utilizando dispositivos incendiários. Por causa dessa absoluta autonomia das células individuais, você nunca sabe quem ou o que a ALF irá ter como alvo.
Tendo dito isso, tem sido bastante comum que a ALF não almeja normalmente um pescador individual ou caçador ou abusador de animal de estimação, apesar de que eles vêem problema com tudo isso. Taticamente é muito mais forte concentrar em alvos maiores, alvos industriais, aqueles que vão fazer diferença. Se você vai gastar todo aquele tempo e energia e dinheiro, você vai arriscar perder seu disfarce, você vai arriscar ser acusado de crimes capitais e muito tempo em prisão, você não quer desperdiçar isso em algo de pouca significância ou conseqüência.

DJ: Eu vejo uma analogia com meu próprio trabalho ambiental, em que apesar de que eu me oponha a todo o florestamento industrial, eu geralmente trabalho com madeireiros independentes contra as empresas madeireiras transnacionais. Os madeireiros e eu ambos sabemos que em nossas vidas a oposição é muito mais teórica, porque nós estamos tão ocupados lutando contra esse inimigo que é bem maior.
DB:
Isso é análogo, mas não completamente. Apesar de que alguns de nossos alvos principais da indústria de venda de peles inclua as lojas Niemann-Marcus, Macy’s, e Bloomingtons, nós também almejamos lojas de peles de famílias. O mesmo é verdade para açougueiros e abatedouros. A razão é a de que podem existir só duas ou três lojas que vendam pele em uma cidade, e se você quer eliminar todas elas, você quer eliminar todas, não importando quem seja o dono. Algumas vezes as grandes lojas de departamento são mais fáceis de ter como alvo, porque eles não estão tendo muito lucro com suas peles nesse momento, significando que se você causar a eles muitos danos monetários eles podem ser convencidos de que suas linhas de peles não valem o esforço. Obviamente que se a loja é focada somente em peles, será mais difícil convencê-los a saírem do negócio, mas nós já fechamos lojas por causa de ataques repetidos em suas janelas, ou de incêndios.

DJ: Como você responde às críticas de que ao interferir com pesquisa animal você está matando crianças: se você não tivesse libertado nenhum gato, os pesquisadores já teriam achado uma cura para a leucemia.
DB:
A pesquisa animal forneceu algumas medidas temporárias para algumas das doenças da sociedade, como doenças ambientalmente causadas como o câncer ou a AIDS, e mais amplamente a ciência conseguiu criar alguns medicamentos que permitem que as pessoas vivam mais. Mas a ciência não curou essas doenças, e por um número de razões eu não acredito que irá.
Para começar, eles estão utilizando modelos animais, que é ciência fraudulenta. Você não pode dar a um rato a doença de Alzheimer, criar um procedimento que ajuda o rato, e dizer, “Vamos aplicar isso em humanos e ver o que acontece.” Se você vai observar essas doenças, você tem que observar em humanos, você tem que olhar em estudos clínicos e tentativas, e você tem que olhar no ambiente.
Câncer é um ótimo exemplo. É uma doença da civilização industrial ocidental. Isso, é claro, é a verdade de muitas das doenças que nós estamos infligindo em nós mesmos. Olhe para os produtos químicos e venenos que comemos em nossa comida, respiramos em nosso ar, e bebemos em nossa água. Olhe para o stress que as pessoas estão tendo em suas vidas diárias para irem trabalhar, sustentarem suas famílias, pagarem suas contas, e viverem sob essa democracia repressiva que se assemelha com nada mais do que uma grande prisão.
Outra razão é que é fraudulenta, e o câncer não será curado, porque “curar” é uma indústria multibilionária. As pessoas que ganham salários de seis ou até sete dígitos como os administradores de institutos de câncer e corporações farmacêuticas não vão fechar essa torneira de dinheiro. Eles farão qualquer coisa para continuar com seus negócios, incluindo torturar milhões de milhões de animais.

DJ: Você continua falando sobre tortura, mas eu escuto na imprensa corporativa todo o tempo que os animais na verdade são muito bem tratados. Existem leis nos livros dizendo que eles têm que anestesiar os animais antes da cirurgia, e assim por diante.
DB:
Bem, eles não usam anestesia quando eles fazem estudos sobre dor. Os gatos que eu resgatei do laboratório estavam destinados a terem suas espinhas dorsais quebradas para estudar como conserta-las; eu não consigo imaginar que não haveria dor envolvida. Bebês primatas têm seus olhos fechados e costurados em experimentos de privação. Cordas vocais são geralmente cortadas para que os animais não possam gritar durante suas torturas. Você já teve uma cirurgia? Claro, você foi anestesiado durante a cirurgia, mas depois você sentiu dor? Claro que sentiu. É por isso que depois eles te dão medicamentos para a dor.
Mas tudo volta para a grande questão filosófica, que é se você considera que tanto os humanos quanto os não-humanos têm um direito inerente de viverem livres de tortura e abuso, então nunca poderá haver justificativa em torturar um não-humano para encontrar uma cura de uma doença relacionada à espécie humana. É nossa doença, é nossa merda, e nós que temos que lidar com isso. Não pode existir justificativa para criar esse tipo de horror em outro indivíduo porque temos uma crença de que os humanos são maiores do que as outras espécies.

DJ: Essa pode não ser uma pergunta justa, mas se ao torturarem 5700 ratos, ou 570.000 ratos, ou o que for, eles pudessem encontrar uma cura para a leucemia, isso seria bom?
DB:
Eu não acho que seja uma pergunta justa porque eu não acho que irá acontecer. Quando à própria pergunta, eu voltaria e apontaria para a pesquisa médica que os Nazistas fizeram nos Judeus e outros que eles consideravam inferiores. Essa pesquisa é ética? Eu não acho. Simplesmente considerar o outro inferior não nos dá o direito de torturá-los, mesmo se nós acreditarmos que poderemos conseguir informações úteis ao fazê-lo. É uma pergunta ridícula de qualquer modo, e uma que recebo todo o tempo. Se você realmente quer impedir que as crianças peguem leucemia, ou qualquer tipo de câncer, não ponha refinarias de produtos químicos e de óleo em cima de seus aqüíferos, ou jogue spray de Roundup em nosso alimento, ou deixe vazar lixo tóxico em nossos rios e oceanos.
A pergunta também é racista e classista. Aqui está o porquê: nós temos mais de seis bilhões de pessoas no planeta, a vasta minoria desses vivendo na América do Norte e brancos. E mesmo assim quem supostamente essas curas irão salvar?

DJ: Eu me lembro de ter lido há muitos anos atrás que pelo preço de um único bombardeiro B-1, cerca de $285 milhões, nós poderíamos prover tratamentos básicos de imunização, como vacinas para catapora, difteria, e sarampo, para aproximadamente as 575 milhões de crianças no mundo que não os possuem, e então salvar 2.5 milhões de vidas anualmente. O ponto é que salvar as vidas das crianças nunca é o ponto, apesar da retórica.
DB:
Exatamente. Bilhões de bilhões de dólares são gastos e milhões de milhões de animais são torturados, tudo na esperança ilusória de criar curas para uma minoria de indivíduos neste planeta, uma minoria que abusa seus corpos e o ambiente, e então dizem, “Bem, eu tenho câncer por causa de toda essa merda que estou comendo e bebendo, e stress, e a sociedade em que vivemos, então vamos matar um monte de animais porque nós na América do Norte merecemos viver mais.”

DJ: Você mencionou que a cultura assemelha-se a uma prisão. Você passou um tempo preso.
DB:
É engraçado: quando eu saí da prisão e do seu extremo regime de volta à nossa chamada sociedade livre, eu disse, “Uau, ainda temos as paredes da prisão, ainda temos os guardas da prisão. Nós temos um pouco mais de espaço para correr, mas ainda é uma prisão. Não tem muita diferença. Até mesmo em termos do alimento que somos oferecidos.” Realmente abriu meus olhos.

DJ: Eu não quero depreciar a experiência dos estudantes que eu leciono em uma prisão, mas eu tenho que te contar que me lembra tanto a minha escola, só que agora os monitores carregam um cassetete..
DB:
A prisão concentra os capangas mais violentos da escola em uma minúscula área contida. Eu estou falando sobre ambos os internos e os guardas. Os guardas estão lá, obviamente, porque até um certo nível eles têm prazer de fazer parte daquela mentalidade de estar por cima dos outros.

DJ: Como você foi preso?
DB:
Em 1º de Junho de 1992, Darren Thurston e eu assaltamos os canis bioanimais da Universidade de Alberta em Edmonton. Isso era uma instalação de retenção de animais que pegava gatos e cães, a maioria de fazendeiros - que eles pagavam cerca de quarenta dólares por gato que eles pegavam em torno de seus celeiros - ou criadores e os preparavam antes de os enviarem para instalações de pesquisa diferentes dentro da universidade. Eles os iniciavam com dietas especiais ou davam-lhes drogas. Nós levamos vinte e nove gatos, e causamos danos de cerca de $75.000 ao prédio.

DJ: Eram muitos dos gatos ferais?
DB:
Sim. Na verdade tiveram quatro ou cinco que não conseguimos pegar porque eles estavam muito assustados.

DJ: Como alguém acha um lar para um gato feral?
DB:
Algumas pessoas - como fazendeiros com celeiros - pegam gatos ferais. Em nosso caso, encontrar lares mesmo para vinte e nove gatos não foi um problema. Após carregarmos os gatos em caixas individuais, nós fomos a um quarto de um hotel de estrada e tiramos algumas fotos e filmamos para a mídia. Essa foi minha ruína, o que eu vou falar em um minuto. Então mandamos comunicados à imprensa, e entregamos os gatos primeiro para um veterinário para termos certeza de que eles não estavam doentes, e então para seus lares.

DJ: Sem querer incriminar ninguém, mas os veterinários geralmente estão por dentro também, ou você apenas chega e paga para alguém tomar conta de vinte e nove gatos?
DB:
Existem veterinários que também são simpatizantes do movimento de direitos dos animais. Eles podem rapidamente entender o que está acontecendo. Seria muito perigoso usar qualquer veterinário, especialmente após enviar comunicados à imprensa.
De qualquer forma, Darren foi pego porque as autoridades encontraram sua impressão digital em uma garrafa de tinta que usamos dentro da instalação. Nós usamos luvas, claro, mas evidentemente a dele tinha um furo.

DJ: Um pequeno detalhe pode te derrubar. . . .
DB:
O meu erro foi pior. Nós colocamos uma faixa que tinha escrito ALF como pano de fundo no hotel, e então fizemos o vídeo, limpamos o lugar, e saímos. A polícia descobriu o quarto do hotel pelo vídeo e procurou por impressões. Eles encontraram um pedaço de adesivo deixado em uma vara de que foi usada para prender a faixa, e no adesivo eu deixei uma impressão do meu polegar. Foi assim que fui pego. Eles fizeram um mandado para a minha prisão, mas naquela hora eu já estava nos Estados Unidos, onde eu fiquei por dois anos até quando fui apreendido em uma barreira de estrada na Califórnia, o que foi bem emocionante.

DJ: Você estava como clandestino nos EUA?
DB
: Sim, mas não completamente, porque eu ainda estava me associando com alguns ativistas de direitos dos animais conhecidos, e meus amigos.

DJ: Você estava usando seu nome?
DB:
Eu tinha uma identidade falsa. Mas os federais descobriram onde eu estava, e esperaram por mim em uma estrada que levava à casa de um amigo. Foi tudo bem surreal. Tinham provavelmente quinze policiais, todos atrás das portas de seus carros com suas armas sacadas. Por um megafone eles me ordenaram a usar minha mão esquerda para abrir minha porta, e então sair e ajoelhar na calçada, com as mãos na cabeça. Depois que eles me algemaram eles andaram curvados até o meu carro com as armas sacadas para ter certeza que meu carro estava seguro.

DJ: Conte-me de novo o quanto de danos você causou em sua ação.
DB:
Setenta e cinco mil dólares.

DJ: Quanto eles gastaram até te pegarem?
DB:
Eu estive sob investigação desde 1995. Eu tenho certeza que eles gastaram milhões de dólares em mim. Eu ainda estou sempre sob investigação, e ainda sempre sob vigilância. Eu acho que você poderia dizer que é minha forma de sabotagem econômica contra o Estado.
De qualquer forma, eu fui preso, e passei as próximas três semanas em nove instalações diferentes na Califórnia até quando eu fui formalmente deportado. Eu fui enviado para o Centro de Detenção de Edmonton, que é uma instalação de retenção, onde me negaram a fiança. Eu passei ao todo quatro meses antes de me declarar culpado por ser encobridor do crime após o fato de arrombamento e invasão.

DJ: Após o fato?
DB
: Eles só podiam me colocar no hotel. Thurston levou a pior porque sua impressão estava na cena, e também porque ele já tinha sido acusado de um incêndio de uma ação anterior. Ele passou um total de dois anos preso. Após eu ter sido o sujeito de uma caçada internacional, e de ser chamado de um perigo para o público, eu fui sentenciado em tempo de prisão cumprido e probatória.

DJ: Qual o maior tempo que qualquer ativista da ALF já foi preso?
DB:
Rod Coronado foi sentenciado a cinqüenta e sete meses, mas isso incluía uma acusação não relacionada. Ele foi condenado por roubo e destruição de propriedade federal por ter levado um diário de um homem da cavalaria do museu de Little Big Horn. Eu não tenho certeza de quanto tempo ele seria condenado se ele não fosse condenado por isso. De qualquer jeito, ele passou cinqüenta e sete meses e agora está livre.

DJ: Quanto custa fazer uma ação?
DB:
O custo depende do objetivo, e geralmente vem em forma do dinheiro da gasolina e em quartos de hotel, se você escolher dormir em hotéis quando você está na estrada ou fazendo vigilância. Uma ação acontece em uma noite, mas podem haver noites ou semanas de vigilância antes.
Uma carta interessante veio de uma célula da ALF após uma ação no último ano. O ataque foi contra uma instalação - Biodevices, na Califórnia - que faz vivissecção em cachorros para marcapassos. Os ativistas da ALF levaram todos os quarenta e seis cachorros, o que foi uma façanha incrível. . .

DJ: Onde eles puseram quarenta e seis cães?
DB:
É por isso que foi tão incrível. Eu não consigo imaginar como eles conseguiram encontrar lares para esse tanto de cães. No que diz sobre retirá-los, eles provavelmente tinha um monte de caixas ou caixas transportadoras de cães, e alugaram um caminhão de capacidade de uma tonelada.

DJ: Não seria perigoso alugar um caminhão?
DB:
Existem formas de fazer isso. Você pode ter uma identidade falsa. Ou uma pessoa simpatizante com um álibi pode oferecer um cartão de crédito. Então se essa pessoa for intimada, ela ou ele terão que decidir se vão falar ou se irão presas por não cooperarem.
De qualquer forma, um dos ativistas daquela célula escreveu uma carta levantando a questão do fato de que depois que a instalação foi esvaziada, eles não a queimaram. Evidentemente, alguns dos outros ativistas da célula não queriam fazer isso. O ponto interessante da carta era que a ação custou $7000, e se a célula estivesse apenas interessada em salvar cães, eles deveriam ter ido a um abrigo de cães, onde eles teriam salvo muito mais vidas com o dinheiro que gastaram.

DJ: O escritor da carta tem um argumento.
DB:
Eu acho que o efeito desse ataque foi mais dramático e de longo prazo do que ir a um abrigo, mas a carta implicitamente levanta a boa questão da distinção entre ação simbólica e não simbólica.
Salvar quarenta e seis cães do abrigo teria sido uma ação puramente não simbólica, em que você não está fazendo um argumento. Escrever cartas ou protestar é puramente simbólico, em que nenhum animal é salvo. Eu acho que a ALF tenta se manter longe de ambos esses pólos. Muitos dos membros da ALF/ELF são motivados a fazerem o que eles fazem em parte porque eles acreditam que muito do movimento ambiental foi reduzido a uma postura simbólica que faz pouco mais do que gastar tempo e energia. Claro, ações simbólicas ganham algum benefício da mídia, levantam alguma conscientização pública, mas elas não nos levam a lugar nenhum em termos de salvar o habitat ou salvar vidas de animais. Nós não estamos vendo um movimento real, um progresso real. Todas as vezes que alguém levanta uma faixa, nós passamos um slogan, e a foto está no jornal ou na tv, mas o que nós realmente conseguimos? Mas não importa qual foi o efeito que teve libertar aqueles cães da Biodevices, a verdade é que aqueles ativistas salvaram as vidas de quarenta e seis cães de uma cirurgia de coração exposto, e a tortura que vem junto com isso.

DJ: No final das contas, no que você espera que as ações da ALF e da ELF conduzam?
DB:
Eu espero que elas conduzam um número maior de pessoas a reconhecerem que não é preciso uma pessoa especial para fazer uma ação, que qualquer um pode fazer uma ação, e que nós temos uma responsabilidade moral e uma obrigação de agir contra a tortura e o abuso, não importando se essa tortura e esse abuso é de humanos, não-humanos, ou do nosso meio ambiente. Nosso planeta está sendo destruído, espécies animais estão sendo destruídas, e nós temos uma responsabilidade de impedir essa matança de qualquer forma que pudermos.
Eu esperaria que após a ouvir sobre a ação em Vail, algumas pessoas parassem e pensassem, “Uau, algumas pessoas se preocuparam tanto com o lince que eles incendiaram cinco estruturas que estavam a milhares de metros montanha acima e escaparam.” Eu esperaria que essas pessoas se inspirassem com isso, e que elas agissem sobre as questões que estão próximas de seus corações. Eu esperaria que essas ações causassem que elas parassem e pensassem sobre suas próprias vidas.
Quantas pessoas ficam enojadas em abatedouros? Se algumas pessoas normais e corriqueiras podem ir a um abatedouro e remover galinhas - dar a essas galinhas vidas - e ao fazerem isso estarem fazendo uma forte declaração de oposição contra esses tipos horrendos de crimes contra a natureza, então qualquer um pode fazer isso.

DJ: Como qualquer um pode fazer isso e ainda se manter seguro? Afinal, nós estamos falando de crimes.
DB:
Primeiro, eu diria que as pessoas deveriam ficar de olho em provocadores. O FBI tem tido há muito tempo o hábito de se infiltrar em movimentos. Isso significa que você deve trabalhar com pessoas que você conhece e confia.
Segundo, existem muitas informações boas por aí sobre segurança, e existem muitas pessoas tentando fazer com que essas informações sejam o mais amplamente conhecidas e entendidas o possível. Um website, chamado “the frontline information site”, tem uma enorme quantidade de informação sobre segurança: como não deixar provas forenses para trás, como se comportar entre seus amigos e co-ativistas em termos do que falar e não falar, e histórias sobre como uma pessoa começou a trabalhar com a ALF.
Muitas dessas informações estão disponíveis para qualquer um que procurar, tanto na web, em livretos distribuídos por grupos de direitos dos animais, em revistas como The Earth First! Journal, ou no No Compromise, no Live Wild or Die, ou Underground.
Provavelmente a informação mais importante é para as pessoas manterem suas bocas fechadas. Muito frequentemente as pessoas são presas não por causa de algum grande trabalho de detetive da polícia, mas por causa de suas bocas, ou as bocas de outras pessoas. Darren e eu fomos uma história diferente, e o Rod Coronado foi uma história muito diferente: muitas pessoas passaram muitos meses na prisão porque eles não cooperaram com os grandes júris que investigaram o Rod.

DJ: Eu quero voltar à questão do que você quer. Na escala maior, visto que a civilização industrial está matando o planeta, e nos matando, eu quero destruí-la, causando o mínimo de dano possível à vida humana e não-humana o possível. A ALF/ELF quer isso?
DB:
Eu não acho que acabar com a civilização é um objetivo explicitamente declarado da ALF ou da ELF, mas eu acho que está implícito nos objetivos que eles declaram. Alguns dos objetivos implícitos incluem: acabar com o agro-negócio; acabar com as indústrias farmacêuticas; acabar com as indústrias de vivissecção; acabar com as indústrias de roupas feitas de animais e de entretenimento com animais; acabar com a exploração de madeira industrial; acabar com o desenvolvimento em massa e a construção de estradas. Isso tudo acaba levando, pelo menos em minha mente, para o objetivo maior de ou acabar com a civilização industrial, ou pelo menos alterar radicalmente o modo que essa sociedade funciona e o modo que as pessoas relacionam-se com seu ambiente e com as outras espécies.

DJ: Como a mudança virá?
DB:
Eu não acho que as ações de grupos clandestinos por eles mesmos possam parar com a vivissecção, as fazendas industriais, e assim por diante. Terão de ser os esforços combinados da ALF e de grupos de direitos dos animais não-clandestinos que fazem protestos, e os homens e mulheres idosas que escrevem cartas, e as pessoas que se envolvem com as comunidades, educação: tudo isso irá se desenvolver em uma mudança radical de consciência. A questão, eu penso, é e sempre foi se essa mudança radical virá logo, antes que seja “tarde demais”.

DJ: Nós já estamos no meio do apocalipse.
DB:
Sim, nós estamos no meio do apocalipse. Dado o rumo atual da civilização, eu sou extremamente pessimista quanto à sobrevivência de nossa espécie, e quanto à sobrevivência de muitas outras espécies. Nada disso me impede de agir, porque eu não poderia viver comigo mesmo - e isso é provavelmente verdade para a maioria dos ativistas - se eu me sentasse e conseguisse um emprego e visse tv, enquanto eu soubesse que algo está acontecendo. Quando você sabe que algo está muito errado com nossa cultura, você não pode deixar de fazer algo, mesmo que você não tenha certeza de que o que você fizer irá fazer alguma diferença. Você TEM que fazer algo.

DJ: Frequentemente após minhas palestras, alguém pergunta, “Se as coisas estão tão desanimadoras, porque você não simplesmente desiste?” A verdade é que nunca me ocorreu desistir.
DB:
Eu não acho que seja fácil para pessoas como nós desistir, porque quando você tem o conhecimento, quando você tem o entendimento, a consciência, você fica preso com o que você sabe. E o que eu sei é isso: o meio ambiente está sendo destruído, o que significa é claro que nós estamos destruindo a nós mesmos. Eu sei que se nós formos sobreviver, nós temos que realmente expandir nossa consciência, nosso círculo de entendimento e consciência, para incluir o meio ambiente, e para incluir o sofrimento de outros, tanto humanos quanto não-humanos. E eu também sei que se nós nos importamos sobre qualquer coisa além de nós mesmos e nosso dinheiro, então nós precisamos começar a fazer algo, seja nos juntarmos à ALF ou à ELF, escrever uma carta, protestar em frente a uma loja de peles, ou impedir que um Wal-Mart entre em sua comunidade. O fato de simplesmente ter nascido biologicamente um humano não te faz automaticamente um ser humano e um membro da sociedade humana. Para se tornar totalmente humano e para ser um membro de qualquer tipo de sociedade humana que gostaríamos de fazer parte, nós temos que nos tornar responsáveis - tomar responsabilidade ativa - pelas ações de nossa espécie e de nós mesmos. Ficar sentado em cima do muro não adianta. Seria o mesmo que você estar morto.